Quanto Arinto o tempo tem?
Estima-se que haja no mundo mais de 10.000 castas. Portugal é dos territórios mais bafejados pela diversidade, cabendo-lhe uma importante fatia de 250 variedades autóctones reconhecidas, estimando-se que na verdade sejam mais de 320. Há ainda as célebres questões da sinonímia, os clones que não estão estudados a fundo, as suspeitas de algo ser o mesmo que já conhecemos ou ser qualquer coisa nova.
Um estudo recente publicado pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) concluiu que o Cabernet Sauvignon era a casta tinta mais plantada no mundo, com 5% do total da plantação. Seguem-se Merlot e Tempranillo (Tinta Roriz/Aragonês). Já nas castas brancas, o estudo refere a Airen (usual na imensidão de La Mancha, Espanha) e o Chardonnay como as variedades com maior expressão de plantio.
E em Portugal?
De acordo com a OIV, a Tinta Roriz/Aragonês é a tinta mais plantada, seguida pela Touriga Franca. Nas brancas, Fernão Pires mantém-se líder.
O estudo da OIV analisa dados desde 2000, sendo muito provável que possa apresentar resultados distintos nos próximos anos. Se dificilmente o Cabernet será destronado da pole position tinta, provavelmente a Airen perderá a liderança, tal como várias outras variedades tidas como promissoras deverão ser chamadas ao palco principal.
Perspetivo esse cenário tendo em consideração as alterações climáticas, com aumentos generalizados de temperatura e períodos de seca mais severos e longos. Mas neste exercício de previsão convém igualmente equacionar-se a atual apetência mundial por vinhos mais frescos e menos encorpados, que não sejam bombas de nada – nem de fruta nem de madeira.
O futuro ficará encarregue de confirmar se haverá dentro de alguns anos dezenas e dezenas de exemplares estremes de Arinto (tal como acontece com o Alvarinho) em diferentes regiões do país. Uma estrela em ascensão, que o tempo dirá quanto tempo terá de palco a solo.
No mapa português, não por acaso uma casta branca tem galgado terreno sobre as demais, precisamente por possuir características que se encaixam como uma luva no que tanto se procura – acidez firme, capacidade de guarda, discrição aromática.
Como estrela a solo, tem sido em Bucelas que o Arinto tem alcançado brilharetes ao longo de décadas e por mérito próprio. De facto, poucas castas brancas portuguesas conseguem oferecer tamanha vibração como o Arinto em Bucelas, incluindo colheitas mais antigas. Em paralelo, noutras regiões do país há muito que o Arinto tem sido enquadrado em diferentes orquestras, sobretudo para conferir acidez e frescura em lotes com outras castas, que lhe ganham em exuberância aromática.
Do Arinto não se espere tropicalidade, flores e frutos a rodos. A casta é aromaticamente muito discreta, com apontamentos de limão, lima e maçã verde, a que se junta uma agradável sensação de pedra granítica. Com isto, lá vamos nós entroncar na célebre e discutida mineralidade, conceito simultaneamente concreto e abstrato, questionável mas aplaudido à luz do mercado do vinho de hoje.
É verdade que o Arinto (Pedernã, no Minho) tem sido das castas mais plantadas em Portugal, de norte a sul, do litoral ao interior, pelas razões apontadas. O que começa a ser uma constatação é a importância crescente que tem vindo a assumir percentualmente nos lotes, ficando o futuro encarregue de confirmar se haverá, dentro de alguns anos, dezenas e dezenas de exemplares estremes de Arinto (tal como acontece com o Alvarinho) em diferentes regiões do país. Uma estrela em ascensão, que o tempo dirá quanto tempo terá de palco a solo.
Insisto, todavia, num ponto que me parece determinante: é urgente estudar-se a fundo o gigante património genético de castas portuguesas, permitindo identificar mais variedades consensuais, que ajudem a refrescar os nossos vinhos e tenham um comportamento resistente às intempéries e às pragas. Aguardemos os resultados das dezenas de campos ampelográficos experimentais que estão a plantar-se por todo o país e, sobretudo, esperemos que haja a inteligência coletiva de partilhar os resultados. Em tempo útil, com mais certezas do que suposições.
Zé João.
Concordo em quase tudo com o que escreve! Fui muitos anos Produtor de Vinho Verde e durante muitos anos produzi e vinifiquei a Pedernã! Agora vão uns anos que estou no “berço” do Arinto em Bucelas. Distinto este destas “bandas” sobretudo diferencia-se por uma “alta taxa de mineralidade” evidenciada na “salinidade” e nos perfis que se conseguem construir e por ultimo na longevidade que se consegue atingir. Quando quiser volte de novo até cá…
Sem dúvida. O Arinto de Bucelas tem um certo “twist” que lhe confere uma identidade muito própria. Até breve.