Um Chardonnay de Jura

Para quem interpreta os vinhos da Borgonha como uma espécie de rock sinfónico, é muito possível que os vinhos de Jura sejam punk rock.

Nestes anos em que o mundo anda ávido pelo que é novidade ou diferente, Jura tem saído beneficiada. A região alberga um conjunto apreciável de produtores experimentalistas, autores de alguns dos vinhos que mais têm sido valorizados no mercado francês e, por consequência, internacionalmente. Por lá estão plantadas castas famosas, como Chardonnay ou Pinot Noir, mas também outras menos divulgadas – Savagnin (branca), Trousseau (tinta, o nosso Bastardo), Poulsard (tinta).

A geografia é fria. Jura é vizinha da Borgonha e dos Alpes Suíços, tem solos calcários pontilhados por algumas argilas, invernos bastante rigorosos, graus de acidez que frequentemente obrigam a estágios mais prolongados em barrica, sem que a madeira se sobreponha, somente para suavizar a brutalidade da acidez. As vinificações são por vezes “desprotegidas”, tendo Jura ganho fama também por propor vinhos de carácter manifestamente oxidativo – o “vin jeune” é o mais famoso, um vinho branco elaborado a partir da casta Savagnin, estagiado em barricas sem que as mesmas sejam tapadas, o que vai conferir toques marcadamente oxidativos.

O Domaine Rolet, sediado em Arbois, foi dos precursores em vinhos tintos monocasta. Explora um total de 65 hectares, segmentados por Arbois, Côtes du Jura  e L´Etoile (a mais famosa apppellation de Jura. A idade média das vinhas é de 45 anos.

Fiquei surpreendido ao provar o Domaine Rolet Côtes du Jura Chardonnay 2015 (preço médio de 26,00€). Nasce de vinhas de topo de encosta, viradas a sul, de matriz calcária. Estagiou 15 meses em barricas novas, mas sob vários prismas chega a ser a antítese da imagem que associamos ao binómio Chardonnay/barrica. À exceção do volume, tudo o resto é austeridade e solo, ou melhor, acidez, austeridade e solo. É um vinho de nervo, que expressa uma mineralidade profunda, elegante e muito afirmativo. Ao primeiro contacto mais parece um cubo de gelo que nos entra na boca para depois se revelar por inteiro.