Se por estes dias provarmos 50 vinhos tintos portugueses, entre os 5 e os 15€, de várias regiões portuguesas, é muito provável que mais de metade apresente aromas idênticos e perfis excessivamente semelhantes. Estaremos a diferenciar ou a padronizar?

Durante anos, sobretudo por ser algo inconstante e não produzir muito, a Touriga Nacional foi quase proscrita em várias regiões do país. Eleger os melhores clones e perceber-lhe as manhas e os humores foi essencial. E assim, sobretudo desde finais dos anos 90 do século passado, a Touriga deixou de ser um exclusivo do Dão ou uma pimenta no Douro para, paulatinamente, afirmar-se como a mais reputada variedade tinta nacional.

Para enfrentar os mercados externos que estão habituados a escolher o vinho pelo nome da casta, a Touriga Nacional foi a aposta. De tal modo que a dada altura chegou mesmo a ponderar-se alterar-lhe a designação para Touriga… Portuguesa.

No mais recente ranking de castas divulgado pelo IVV – Instituto da Vinha e do Vinho, a Touriga Nacional surge como a terceira mais plantada no país – mais de 13.000 hectares, que representam 7% do total do plantio. Muito próxima da Touriga Franca (13,3 mil hectares), ainda longe da Tinta Roriz/Aragonez (mais de 20 mil hectares).

Embora de bagos pequenos e produções relativamente baixas, a Touriga Nacional adapta-se bem ao calor, consegue boa cor, bom tanino e aromas interessantes a violetas, esteva (sobretudo no Douro), fruto vermelho escuro e mesmo algum fruto silvestre. Por se adaptar bem ao calor tem sido ao longo dos anos adotada em territórios como Austrália, Argentina, Califórnia e tantos outros. Para boa surpresa, passou ainda a constar do restrito lote de sete novas castas que será permitido cultivar em novos plantios de Bordéus.

De facto, a Touriga Nacional é uma grande casta.

 

A Touriga Nacional, tida como a rainha das castas tintas portuguesas, deve ser usada com a parcimónia que o estatuto que lhe conferiram  aconselha.

 

Observo, todavia, que em diferentes circunstâncias não está a ser trabalhada convenientemente. Em muitos vinhos portugueses é hoje um cavalo de batalha para usar nos contrarrótulos e para tornar mais apelativos lotes de vinho nem sempre devidamente equilibrados. Se é verdade que os aromas encantadores que oferece podem disfarçar muita coisa, não menos verdade é que a linha de fronteira até que se tornem excessivos e maçadores é bastante ténue.

Do Dão, o berço por excelência da Touriga Nacional e onde se exprime com uma finura e elegância únicas, começam a surgir alertas importantes. Produtores e enólogos que verdadeiramente têm tentado valorizar a região avisam que o Dão está demasiado concentrado na Touriga (e no Encruzado), perdendo o foco em algo bem mais significativo – o incrível património genético oferecido por várias outras castas e o incalculável valor de muitas vinhas velhas que ainda teimam sobreviver. Basta espreitar os vinhos de colheitas antigas para percebermos o imenso potencial da região para lá da Touriga (e do Encruzado),

Num país como Portugal, a identidade de uma região viverá muito de um certo perfil genérico mas também de um sentido de “terroir”, de uma noção de lugar. Quando uma região inteira se cingir a uma só casta ou, pior, quando um país uniformizar uma tipologia de vinho a pretexto de uma casta estará a subtrair o mais valioso património – a diversidade.

A Touriga Nacional, tida como a rainha das castas tintas portuguesas, deve ser usada com a parcimónia que o estatuto que lhe conferiram aconselha. Se usada e abusada à exaustão poderá reinar por mais uns tempos mas na época da busca pela diferença no mundo rapidamente arrastará o país a um  tropeção na hierarquia da nobreza.

Correndo o risco de ser repetitivo, para quando uma efetiva aposta do país e das regiões na exploração de dezenas de outras castas ainda menos usadas por entre as mais de 250 que propalamos aos ventos? Se o presente/futuro é a diferenciação, porquê afunilar no que já todos começam a conhecer?

Num território com a dimensão de Portugal, os vinhos de “terroir”, os vinhos de lugar, são/serão a mais autêntica realeza.