Nos dias mais quentes, por vezes até tórridos de verão, poucas coisas sabem melhor que uma cerveja bem fresca no momento certo. Mas, todos os que apreciam vinho não estarão a ignorar opções igualmente válidas, embora menos óbvias?

Os termómetros estão bem acima dos 30ºC. Está a regressar da praia ou no final de um dia intenso de trabalho. Já bebeu uns dois litros de água, já se lambuzou com um gelado, já experimentou um chá frio e o que ia agora mesmo bem era uma cerveja fresca, fresquinha… estupidamente gelada.

Pecador me confesso. Se for no regresso da praia, ainda numa esplanada com a tal cerveja a acompanhar uns snacks salgados… Ui, ui, quais estrelas Michelin quais quê, por instantes sinto-me no divino das harmonizações bem-sucedidas.

Em situações semelhantes esquecemo-nos, todavia, de outras opções que poderão elevar o grau de satisfação e propiciar, inclusive, momentos mais versáteis de harmonização comilona (perdão, gastronómica).

Surgem em primeiro plano os rosés. A tipologia ainda vista com preconceito por alguns consumidores mais tradicionalistas tem sido das que mais crescimento de mercado apresenta, não só em Portugal como noutros países. Os últimos anos têm sido bondosos, expondo uma diversidade de rosés interessante. De um lado, os rosa carregados, de aromas florais, de morangos e de framboesas, de impressão final de uma certa doçura; do outro, cores mais pálidas e esbatidas, aromas mais delicados de cereja, muito mais frescura e acidez, pouca perceção de doçura no final. O chamado “estilo Provence” tem conquistado terreno pelo mundo e, mais importante, tem seduzido mais consumidores para a experimentação de rosés, desnudando o preconceito de os ver enquanto tipologia menor.

Na canícula podemos ainda acrescentar a efervescência de um bom espumante, sobretudo rosés e brancos. Mas o leque é ainda mais abrangente.

Os Pét-Nat são vinhos leves, frescos, de pouco teor alcoólico, muito descontraídos, fáceis de gostar. Surgem habitualmente em garrafas de espumante, com a respetiva carica.

É com agrado que assisto ao ressurgimento dos Pét-Nat. Estes vinhos começaram por granjear adeptos no sul da França, mais recentemente conquistaram o Vale de Loire e, no caso português, estão umbilicalmente ligados à tradição de uma região – a dos Vinhos Verdes.

Os Pét-Nat são vinhos leves, frescos, de pouco teor alcoólico, muito descontraídos, fáceis de gostar. Surgem habitualmente em garrafas de espumante, com a respetiva carica. São engarrafados ainda durante a primeira fermentação e antes de o açúçar natural do mosto ter sido totalmente convertido em álcool. A fermentação continua na garrafa, pelo que o carbónico libertado gera uma efervescência semelhante a um espumante. Não necessitam de sulfitos, dado que o dióxido de carbono libertado pela fermentação atua como anti-oxidante. Podem ser brancos, rosés ou tintos, têm mousse abundante, são habitualmente mais frutados que um espumante, possuem menor complexidade e poder de longevidade até porque são pensados para um consumo imediato.

Resgatam uma tradição dos Vinhos Verdes e surgem agora no mercado opções muitíssimo válidas de produtores consagrados. Niepoort, Quinta da Lixa, Aphros, apenas para citar alguns nomes. Noutras regiões o estilo está, passo a passo, também a ser proposto. Recentemente, no evento “Lagoa Wine Show”, organizado pelo Município de Lagoa com co-produção da Essência do Vinho e apoio da Revista de Vinhos, um casal californiano acabado de chegar ao Algarve encantou-se numa prova de vinhos com o Pét-Nat do projeto Adega do Cantor em detrimento de outros espumantes. E esta, hein?

Não nos devemos ainda esquecer de propostas com largo historial no nosso país. Os vinhos Palhete e os Clarete são excelentes para estes dias mais quentes e combinam que nem ginjas com churrascos e patuscadas de amigos. Somam-se vinhos tintos muitíssimo leves, alguns na ordem dos 12% de teor alcoólico, de cor pouco extraída, aromas francos a fruta, boa acidez e frescura.

Como sempre acontece no vinho, experimente sem preconceitos. Se o pus a equacionar entre um Pét-Nat (Pétillant Naturel) ou uma mini bem fresquinha no próximo regresso da praia, já valeu a pena ter perdido uns bons minutos de sol para partilhar este texto consigo. Valha-nos ter férias, tempo e companhia por dias suficientes que nos permitam ir variando entre estas opções.

n.d.r.: Sim, claro, vou continuar a beber a minha cervejinha. Mas beber cerveja e provar vinhos fora dos cânones mais convencionais parece-me uma conjugação tão válida quanto areia e mar.