O Alentejo, o quê?…

Sem muitas vezes percebermos nem como nem porquê, há alguns ruídos que se criam e que podem deturpar a realidade nua a crua. Numa área como a do vinho, onde as generalizações são particularmente perigosas mas infelizmente comuns, ouvimos disparates amiúde, sustentados em teorias de nada e de coisa nenhuma.

Um desses tiros para o ar insiste na ideia falsa que os vinhos alentejanos têm dificuldade em evoluir corretamente quando comparados com os vinhos de outras regiões. Quem tenta vender esse preconceito alega que são pensados para o consumo quotidiano e ficam mais prontos a consumir mais cedo, logo não terão asas para voar mais alto no tempo.

Alguns dos mais icónicos vinhos portugueses, que durante décadas têm não só sabido evoluir muito bem como revelado uma complexidade extraordinária, são alentejanos. E todos nós, de uma assentada, nos lembramos de meia dúzia de marcas.

É um facto que os vinhos alentejanos revolucionaram a forma de pensar e fazer vinho em Portugal. A partir de meados da década de 80, durante todos os anos 90 e na primeira década deste século expuseram vinhos com mais fruta de perceção inicial, taninos arredondados e mais apelativos. Com isso, o Alentejo afirmou-se como a região preferida dos consumidores de vinho portugueses, detendo consecutivamente cerca de 40% do mercado português, e alcançando uma muito interessante performance nos mercados externos – em 2018, o DOC Alentejo foi vendido a uma média de 4,50€ /litro face aos 2,97€ da média nacional, enquanto o Regional Alentejano foi vendido a 2,99€/litro contra os 2,53€ de média nacional.

Muitos dos consumidores que hoje têm um gosto mais apurado devem-no ao Alentejo, porque foi através de muitos alentejanos que começaram a apreciar vinho. Uma boa parte do sucesso dos vinhos portugueses nalguns mercados de exportação (e em 2018 Portugal superior os 800 milhões de euros em vinho português exportado) deve-se, em larga medida, ao comportamento do Alentejo, encarada como região de vinhos de qualidade segura.

Outras regiões do país certamente gostariam de poder apresentar os números que o Alentejo demonstra. Mas a partir daqui inferir que na região só há vinhos fáceis e sem capacidade de evolução vai uma diferença bem maior que uns tantos Alqueva.

Alguns dos mais icónicos vinhos portugueses, que durante décadas têm não só sabido evoluir muito bem como revelado uma complexidade extraordinária, são alentejanos. E todos nós, de uma assentada, nos lembramos de meia dúzia de marcas. Ora, há assim tantas regiões do país onde possamos fazer esse exercício?

Recentemente, numa prova que tive o prazer de conduzir no evento “Vinhos do Alentejo em Lisboa”, que decorreu no início de abril no Centro Cultural de Belém, por iniciativa da CVR Alentejana e com produção da EV-Essência do Vinho, procurei sublinhar a ideia que os vinhos alentejanos, brancos e tintos, conseguem evoluir bem.

Percorrendo a região, de Portalegre ao sul de Beja, passando por Évora, Estremoz, Borba, Reguengos, Campo Maior e Arraiolos, provaram-se vinhos nalguns casos com bem mais de duas décadas. Revelaram-se exemplos vivos dessa capacidade de guarda, que passou por anos tão distintos como 2015, 2014, 2010, 2008, 2002, 1994 e 1982. Vinhos de ADN alentejano, de produtores clássicos e de novos atores, cheios de carácter e de peito aberto para enfrentar as tontices infundamentadas que ainda se lhes tentam colar. Ah, e se dissermos que dois desses vinhos eram de adegas cooperativas, então…

Pois é. Tal como os bons vinhos de outras regiões portuguesas também os alentejanos sabem evoluir corretamente. Na dúvida, não se embarque no preconceito. Prove-se e retire-se dessa prova a respetiva conclusão.

texto, foto: José João Santos