Em abril começam as apresentações dos Vintage 2017 e dentro de uns meses, não muitos, ficaremos a perceber se estamos diante de um novo ano clássico. Seria o segundo consecutivo, uma espécie de inovação no setor, na sequência de um 2016 que entra para a história como a maior (até ver) declaração de sempre de Porto Vintage.

Os Vintage 2016 obedecem aos cânones mais clássicos da interpretação do que deve ser um Porto Vintage. Fruto preto e fruto vermelho silvestre no nariz, taninos firmes, estrutura volumosa, acidez e doçura em balanço, primeiras notas de chocolate negro, final longo. Ou seja, reúnem a generalidade dos predicados que antecipam longa vida em garrafa. Se quisermos, de algum modo um perfil semelhante a 2011, o mítico ano de Vintage deste século (até ver), muito por culpa da eleição do Dow’s Porto Vintage 2011 como melhor vinho do ano 2014 pela “bíblia” norte-americana, Wine Spectator.

Das dezenas de Vintage 2016 que tive oportunidade de provar noto claramente três divisões: uma mão cheia de vinhos excelentes, onde dois, três se destacam; uma segunda linhagem de vinhos de muito boa qualidade; um terceiro degrau, com uns bem melhores que outros e alguns que francamente desiludiram. Apesar de todos estarem ainda muito jovens, essa divisão parece-me evidente e notória: uma elite muito boa; uma linha média segura; uma terceira fila de vinhos que, nesta fase, mostram desequilíbrio.

O ano de 2016 não foi fácil. Janeiro e fevereiro foram muitos chuvosos, a primavera fria e chuvosa atrasou o arranque vegetativo. Haveria de aquecer na transição para o verão, que foi muito quente e seco. Em julho, uma boa parte da produção de uva simplesmente se perdeu no Douro, por culpa de episódios (infelizmente, cada vez mais frequentes) de trovoadas e granizo. Os ritmos distintos de maturação das várias castas motivaram muita atenção dos viticultores e não fosse a resistente Touriga Franca, a colheita poderia ter sido negra. Menos uva, vindima de muitos desafios.

Sim, se dependesse de mim 2015 teria sido um ano clássico de declaração generalizada de Porto Vintage.

Os Porto Vintage 2015 serão dos mais injustiçados. Dou de barato que o perfil transversal dos vinhos possa não ter o tanino selvagem que se espera nesta fase inicial, mas das mais de quatro dezenas de vinhos que provei noto uma característica que é a que mais valorizo nos vinhos em geral: equilíbrio.

Não consigo definir uma primeira, uma segunda e uma terceira linhas. Há novamente alguns Vintage claramente de patamar de excelência e há, de seguida, uma linha muito homogénea de vinhos profundamente elegantes, com fruto preto e vermelho muito bem enquadrados, com um tanino presente mas esculpido, um final longo e delicioso. Ouço, várias vezes, o argumento que indica que os 2015 dificilmente terão a longevidade dos 2016, precisamente porque o tanino não é tão ríspido e porque o volume não é tão grandioso. Admito-o, mas estou longe de estar convencido. Sim, se dependesse de mim 2015 teria sido um ano clássico.

Ao contrário de 2016, o ano de 2015 foi dos mais tranquilos no Douro. A uva que entrava na adega só provocava uma preocupação a quem a iria trabalhar: não estragar. Inverno frio e seco, primavera e verão quentes e secos. Não houve problemas fitossanitários, não houve praticamente perdas de produção, a Touriga Franca e a Tinta Roriz portaram-se muito bem… Enfim, a colheita foi muito tranquila, quase atípica de tão tranquila.

E 2017?

Ficarei algo surpreso se houver uma declaração clássica generalizada, sendo certo que haverá casas a declarar o ano como clássico.

Em 2017 viveu-se das vindimas mais precoces de sempre. Temperaturas muito altas, tempo bastante seco, stress hídrico. Bem sei, a videira é uma planta que gosta de sofrer para dar boa uva e por ter sido um ano muito quente e seco houve concentração de matéria corante e de açúcares no fruto. Mas também houve maturações desequilibradas.

Dos escassos potenciais Vintage 2017 que entretanto já pude provar não encontrei a tal dimensão de estrutura e rispidez de tanino que tanto se advoga para o perfil mais clássico. Assemelham-se mais ao estilo dos 2015. Acresce a tudo isto um dado não menos importante: 2018 foi ano de pouca uva no Douro… e não sabemos ainda como serão os decisivos tempos de 2019.