O vinho vive dos mais entusiasmantes períodos da história. Fervilham novas ideias, multiplicam-se projetos, debatem-se conceitos, esmiuçam-se abordagens. É difícil, mesmo para os mais atentos ou para quem faz do vinho o dia a dia profissional, acompanhar o ritmo, para não falar do sem número de novos rótulos que vão surgindo nos escaparates.

Quem vive este tempo deve sentir-se privilegiado. Seja em Lisboa ou Paris, em Nova Iorque ou Tóquio, em Londres ou São Paulo, em Buenos Aires ou Hong Kong, nunca tanta gente falou tanto de vinho, nunca tantos quiseram tanto provar e conhecer os vinhos do mundo. Como se estivéssemos diante uma torrente, o vinho, que já era cultural nos países de maior tradição passou a objeto de cultura e de ambição no estilo de vida dos territórios emergentes.

A procura por formação sobre vinho deixou de ser uma excentricidade profissional ou passional e passou a ser uma necessidade, nuns casos, e uma atividade lúdica, noutros. Com o advento dos fóruns, dos blogues e das redes sociais, a informação (e também muita desinformação, diga-se) extravasou o domínio das publicações especializadas e democratizou-se. A indústria livreira não ignorou a mudança e anualmente são publicados dezenas e dezenas de livros sobre vinho – ora mais técnicos ora mais lúdicos – em diversos idiomas. Os documentários cinematográficos e os podcasts acerca do tema também aumentaram exponencialmente e hoje falar de vinho passou a ser tão normal como comentar um restaurante.

Perante tamanha voracidade, cada vez mais gosto de parar e voltar a posicionar.

Retive uma frase de um dos mais respeitados críticos de vinho do mundo, o britânico Hugh Johnson, que considero simplesmente sábia: “Wines don’t have to be rare to be delicious. Or indeed precious”.

Um dos desafios permanentes, exercício a que me obrigo por diversas ocasiões, passa por não tentar endeusar nem diabolizar o que seja. Como há tempos escrevi, facilmente se cai na tentação do exagero, positivo e negativo, e quando isso acontece… Bom, quando isso acontece ninguém sai a ganhar.

Em conversas de ocasião e em cenários de formação tento contrariar uma das ideias que parece estar perigosamente a estabelecer-se junto dos consumidores. Dizem-se intimidados perante prateleiras imensas de rótulos que desconhecem, perante comentários nas redes sociais que ora destroem ora imortalizam determinados vinhos, perante um certo snobismo que alguns insistem colar ao vinho.

Nem só os bons vinhos têm que ser necessariamente caros nem os vinhos de preço mais baixo têm que ser necessariamente maus.

Há uns meses retive uma frase de um dos mais respeitados críticos de vinho do mundo, o britânico Hugh Johnson, que considero simplesmente sábia: “Wines don’t have to be rare to be delicious. Or indeed precious”. (“Os vinhos não têm que ser raros para serem deliciosos. Ou mesmo preciosos”.

Num país como Portugal, onde continuamos a pagar manifestamente pouco dinheiro pela qualidade de vinhos de patamar médio e acima da média, estamos mal habituados. Não perdoamos quando adquirimos um vinho de 3,00€ que não corresponda às expetativas (porque, provavelmente, as tínhamos colocado mentalmente nos 10 ou 15,00€). No outro prato da balança desatamos aos gritinhos, a dizer que é caro ou está inflacionado um vinho que seja raro, peculiar ou com enorme lastro. Mas alguém duvida que se o Barca Velha fosse um vinho de Bordéus custaria no mínimo 1.500,00€ por garrafa?

Num outro ângulo de análise, continuo a insistir junto de quem me questiona que um bom vinho não tem que ter necessariamente uma capacidade de evolução de décadas, um volume gigante ou uma estrutura inquebrável. Pode até ser um vinho muito suave, que nos leve a querer repetir um e outro copo mais. Apenas, e já é muito, pelo prazer que proporciona.

Partilho aqui três compras assíduas que tenho realizado: Sidónio de Sousa Brut Nature (um dos melhores espumantes portugueses na faixa de preço a que se situa), Campolargo Alvarelhão (um vinho incrivelmente fresco, leve e viciante, com um rótulo que é a cereja em cima do bolo), Casa de Saima Baga Corga Tonel 10 (uma versão muito suave e fresca da Baga, a lembrar um bom Pinot). São compras que variam entre os 6,50€ e os 11,00€ (felizmente estou em Portugal e não em Bordéus) e que propiciam prazer descontraído.

Algum deles é o melhor vinho que já provei nos últimos tempos? Algum destes vinhos é excecional? Não, mas lembram-se do que escreveu Hugh Johnson?

Poderia citar muitos outros vinhos de outras regiões portuguesas. Sim, felizmente, vivo em Portugal.

Entretanto, a todos os que em diferentes momentos me interpelam vou repetindo as frases de sempre: os bons vinhos não têm que ser necessariamente caros, mas devem dar prazer; o nosso gosto pessoal não é nem melhor nem pior que o do vizinho; para evoluirmos em entendimento e gosto deveremos experimentar uma significativa diversidade de vinhos, incluindo os clássicos e os experimentalistas; o preço é sempre importante num vinho mas não é tudo – um vinho muito barato pode sair-nos caro por se revelar uma má compra, tal como um vinho fenomenal e extremamente caro pode ser de tal modo único a ponto de quase merecer não ter preço.

Às vezes é preciso parar e voltar a posicionar.