Vinhos “femininos” e outros predicados

Partindo do (errado) pressuposto que os vinhos brancos são femininos e os tintos masculinos, poderei deduzir que um vinho rosé será assexuado (não é branco nem tinto), que um espumante será um vinho adolescente (tem borbulhas) ou que um colheita tardia (de uvas bem enrugadas) será um vinho idoso? Já agora, um vinho fortificado será hermafrodita?

Verter sensações para palavras não é fácil e quando uma boa parte dessas sensações tem um carácter subjetivo mais difícil se torna. Daí que esmiuçar, descodificar e comunicar o vinho seja um desafio permanente que eu, tal como muitos outros, tenho a sorte de abraçar no quotidiano profissional.

Se vários descritivos têm fundamentos técnicos irrefutáveis – e todos os profissionais do vinho treinam nariz e papilas gustativas para os captar corretamente – outros há perfeitamente questionáveis e diretamente dependentes das vivências individuais.

Retenho na memória a frase de um dos mais competentes provadores e wine educators que conheço. No contexto de uma formação disse certo dia, e com graça, que a principal diferença entre o descritivo técnico de um vinho e o descritivo escrito por um crítico ou jornalista era uma certa “poesia”. Tem razão.

Quem escreve ou comenta vinhos com frequência tem obrigação de ser o mais concreto, isento e rigoroso possível, mas torna-se uma quase inevitabilidade o recurso a algumas metáforas, o uso de paralelismos, uma adjetivação nem sempre puramente técnica. Também o pratico e dou por mim a referir-me à raça de um vinho, ao estilo musical a que por vezes me remete ou até ao alinhado ou desalinhado que possa ser. Tento, todavia, fazer dessas figuras de estilo um dado complementar, sem que isso faça esquecer a componente mais técnica do descritivo global. Importa que não haja exageros e que a mensagem global acerca do vinho faça sentido, seja entendível ao comum dos mortais.

Se todas as notas de prova se limitassem a referir taninos, volume, açúcar ou acidez seriam pouco mais do que uma ficha técnica. Ora, comunicar o vinho é mais do que isso.

No capítulo do abstrato, confesso que embirro com o recurso recorrente à expressão “vinho feminino”, à qual críticos e até mesmo produtores e enólogos se socorrem com frequência para descrever vinhos quase sempre aromáticos e de estrutura mais leve, apelativos e sedutores. Acho-a redutora e até contraditória.

Adão, Eva, ambos, Deus ou uma qualquer cegonha (desculpem, mas as minhas crenças vagueiam entre o ateísmo e o agnosticismo) criaram a mulher, que é “apenas” a mais bela e complexa criação que existe à face da terra. Logo, dizer-se que um vinho é feminino significa, para mim, que se trata de um vinho cheio de subtilezas, que merecerá ser descoberto e entendido. Resumindo, a expressão tem tanto de validade como essa espécie de mito urbano chamado “cheiro a armário da minha avó”, expressão tantas vezes usada e ironizada quando entramos na esfera dos vinhos evoluídos pelo tempo.

A elegância, outro descritor recorrente em notas de prova, será muita mais sensata de aplicar e de explicar. Com uma vantagem extra: assume uma conotação positiva. Na maioria das vezes, quando alguém diz que um determinado vinho é “feminino” está a procurar remetê-lo para a esfera da simplicidade e da facilidade – o que, convenhamos, não é nada elegante dizer-se de uma senhora.

Filtrar o carácter de um vinho e traduzi-lo para linguagem que se entenda é um exercício complexo. Captar as cambiantes de cada vinho, interpretá-las e comunicá-las de modo coerente e percetível é o grande desígnio. Com parcimónia. Sem atender a cromossomas ou questões do(e) género. Sem jogos florais nem subterfúgios. Com a convicção e paixão de quem gosta do que faz.

Não defendo uma escrita cinzentona nem um discurso monocórdico. Pode e deve haver criatividade na transmissão das mensagens, até porque uma alusão mais fora do comum e mais “terra à terra” mais facilmente ajuda alguém a perceber melhor o que estamos a querer dizer. Se todas as notas de prova se limitassem a referir taninos, volume, açúcar ou acidez seriam pouco mais do que uma ficha técnica. Ora, comunicar o vinho é mais do que isso e trazer mais públicos para o vinho, sobretudo jovens consumidores, continua a ser fundamental.

Sem poesia, claro. Mas com uma linguagem minimamente atraente.

texto e foto: José João Santos