Bolhas e bolhinhas

Se por um qualquer absurdo ficasse confinado ao consumo de uma única tipologia de vinho seria muito provável que a escolha recaísse nos espumantes. A lógica é fácil de entender: sensação de frescura, versatilidade gastronómica, ideia de celebração e de uma certa sofisticação.

É nesta época do ano que o consumo de espumantes dispara. Felizmente, hoje as opções são inúmeras e francamente mais tentadoras por comparação com o que acontecia há 20 anos. Se o grande salto qualitativo dos últimos tempos em Portugal aconteceu com os vinhos brancos (incomparavelmente melhores hoje do que há duas décadas), uma espécie de mini competição deu-se nos espumantes. A elaboração de bons exemplares efervescentes deixou de ser um exclusivo da Bairrada e de Távora-Varosa para se estender à generalidade das regiões portuguesas. Se pensarmos que até na Madeira encontramos um espumante de muito bom nível…

Fora dos locais mais tradicionais, nas outras localizações a razão primeira para começo de elaboração de espumantes foi, numa larga franja de produtores, uma questão de complemento de portefólio. Se os rosés complementavam a oferta de brancos e de tintos, faltava muitas vezes um espumante para que a montra de produtos, sobretudo diante de potenciais clientes em determinados mercados de exportação, parecesse ainda mais abrangente. A verdade é que o aumento do consumo de rosés e de espumantes obrigou a encarar ambos como casos sérios de negócio e com potencialidades crescentes para ir mais além. Os rosés ficaram mais “sérios”; os espumantes também se apuraram. Finalizando o paralelismo, rosés e espumantes deixaram de ser encarados como vinhos menores; ganharam estatuto próprio, conquistaram posições.

O mercado global do vinho obriga-nos a refletir. Nos últimos anos, os Prosecco (espumante elaborado no Norte de Itália, habitualmente uma tipologia muito fácil de apreciar e quase sempre com algum grau de doçura associado) dispararam nas vendas e diferentes estudos que perspetivam tendências e hábitos de consumo vaticinam que esse crescimento vá prosseguir.

Diz-se por lá que a única diferença entre um pequeno e um grande viticultor se resume ao tamanho do Mercedes, uma alegoria ao facto de cada hectare de vinha em Champagne ser dos mais rentáveis (para quem produz) e dos mais caros (para quem pretende adquirir) do mundo.

Na mais glamorosa das regiões de vinho, Champagne, a realidade constata-se à base de outras subtilezas. Diz-se por lá que a única diferença entre um pequeno e um grande viticultor se resume ao tamanho do Mercedes, uma alegoria ao facto de cada hectare de vinha em Champagne ser dos mais rentáveis (para quem produz) e dos mais caros (para quem pretende adquirir) do mundo.

Mas, das três ocasiões em que visitei Champagne uma imagem muito mais forte ainda hoje perdura na minha memória. Não foram os quilómetros de túneis escavados no subsolo, não foi a geometria das vinhas impecavelmente tratadas, não foram as igrejas que ajudam a perceber o historial de cada singela terra rodeada por vinhas, não foram as incontáveis estórias de cada maison acerca da alegada passagem por lá do monge Dom Pérignon (que terá descoberto o método de vinificação do champanhe) nem tão-pouco foi o encantamento próprio dessas maisons impecavelmente cuidadas e meticulosamente sábias na arte de receber. O que mais me impressionou foi num final de tarde de um dia de semana de época baixa em termos de turismo, ao fazer check-in num hotel, ver a quantidade de garrafas de champanhe que estavam abertas nas mesas, muitas dessas mesas apenas com duas pessoas à conversa no que aparentava ser um tradicional fim de dia de trabalho. Isso não é marketing, é cultura. Melhor, é a cultura do hábito.

Porque sou um otimista, acredito que chegará o dia em que um cálice de Porto e um cálice de Madeira seja partilhado com a naturalidade e frequência de momentos como esses. Num final de dia de trabalho, sem particular motivo de celebração, apenas por ímpeto cultural e modo de estar na vida.

Quanto às bolhas e bolhinhas, experimente um bom espumante/champanhe fora dos momentos festivos. Se estiver receoso, comece por um final de tarde ou mesmo pelo início da refeição. Não se esqueça, os bons vinhos não necessitam de uma ocasião especial. A simples partilha deles é, por si só, um momento a recordar.

texto e foto: José João Santos