A tentação do extremismo

A exemplo de tantas outras áreas da esfera do gosto, também o vinho é muito dado a modas e a tendências, com tudo de bom e de menos positivo que tal representa. Porque sou otimista, acredito que tem sido muito por causa disso que o vinho é, à escala mundial, um dos mais empolgantes setores de atividade.

Se há muito extravasou a esfera agrícola e passou a ser tido como algo cosmopolita, assumidamente um prazer cultural, não deixa de ser paradoxal o facto de estar demasiadas vezes cingido a lutas de ringue, onde sai vencedor quem grita mais alto e não propriamente quem esgrime os argumentos mais lúcidos.

A pretexto do menos ser mais na viticultura e na enologia, de estarmos no tempo em que advogamos a necessidade de resgatar práticas antigas para perceber a mecânica das coisas, de querermos adaptar aos nossos dias técnicas antepassadas, muito se distorce e confunde.

O vinho é diversidade. Em todos os sentidos. E no momento em que tentarmos impor alguma ditadura de gosto estaremos a incorrer num pecado capital.

E é ver discussões intermináveis entre quem garante que passou a beber apenas e só vinhos sem sulfitos e os que fogem deles como o diabo da cruz porque só lhes encontram defeitos e maleitas mil. Há ainda os que só bebem vinhos até 13% de teor alcoólico porque isso é que é elegância e os que não estão para aturar mariquices –vinho que é vinho tem que ter pelo menos 14,5%. Não nos esqueçamos dos que só bebem champanhes (nada de espumantes, cavas ou proseccos) do início ao fim da refeição porque sim, nem ignoremos os que juram a pés juntos que não há vinho no mundo tão bom como aquele que na noite anterior provaram.

Usam-se nestas discussões argumentos quase sempre pouco fundamentados, muitos reveladores de falta de conhecimento, outros manifestamente truncados. Em nome de quê?

O vinho é diversidade. Em todos os sentidos. E no momento em que tentarmos impor alguma ditadura de gosto estaremos a incorrer num pecado capital.

Hoje, os vinhos de Jura são vendidos a preços exorbitantes, esgotam com facilidade e são colocados nos píncaros pelos defensores da onda mais experimentalista. Mas também hoje, os Cabernet da Califórnia bem marcados pelo estágio em barrica e acima dos 14% continuam a ser vendidos a preços elevadíssimos, a desaparecer com facilidade das prateleiras, a merecer aplauso da crítica e ser opção primeira de milhares de consumidores no mundo.

O vinho é diversidade. Em todos os sentidos. Daí que presencie estas discussões e conversas acesas a adivinhar que quando se iniciam vão dar a nenhures.

Mais importante do que ser laranja ou blanc de noirs interessa-me perceber como nasceu e foi elaborado esse vinho. Mais importante do que perceber se esteve num ovo quero descobrir a razão de ser desse vinho. Mais importante do que saber se a barrica é de carvalho americano, francês ou húngaro tenho curiosidade em antecipar como evoluirá ao longo do tempo.

Muito mais importante é entender que cada vinho tem uma história e depende apenas de nós criar a nossa própria estória com esse vinho. Sem extremismos. Sem preconceitos. Apenas, e já é muito, pelo amor ao vinho.

texto e foto: José João Santos