Antíteses da finitude

Há quem acredite que existe algo para além da matéria e que o nosso desaparecimento físico é apenas uma etapa. Sou um descrente. Mas de uma coisa, no entanto, estou piamente convicto: há vinhos únicos, que não sendo eternos nos provocam essa ilusão.

Sempre gostei de história e desde cedo percebi que queria fazer da comunicação um modo de vida. Depois acabaria por surgir o universo do vinho, onde tenho tido o privilégio de aliar o que me realiza profissionalmente. Ao longo destes anos de ligação ao vinho tenho ainda tido a sorte acrescida de provar alguns exemplares raríssimos, capazes de nos elevar a uma outra dimensão e de, em simultâneo, nos rebaixar à mera condição de mortais. Porque esses tais vinhos são precisamente o contrário da finitude humana.

Abrir uma garrafa centenária ou mais do que centenária de um Porto, de um Madeira, de um Moscatel de Setúbal ou mesmo de um Carcavelos é um exercício meticuloso, literalmente trabalhado com pinças, que arrepia pelo que pode correr mal e que chega a emocionar quando finalmente se sentem os primeiros aromas do vinho. É aconselhável muitas vezes libertar esses vinhos da garrafa por 48 a 72 horas antes de os bebermos, deixando-os num decanter para daí os servir ou, então, voltar a colocá-los na garrafa original – já depois de os decantar – para dessa garrafa os servir em definitivo.

A incrível ilusão de experimentar vinhos que não morrem, que não se extinguem, que tantas vezes vão além do nosso entendimento.

Paulo Cruz lida com este processo de forma já experimentada mas com a emoção e o nervoso miudinho da primeira vez. A sala que usou no Palácio de Seteais, em Sintra, ficou com um aroma impressionante, capaz de inspirar todos os Eças deste mundo. Estavam abertas nove garrafas de vinhos Madeira muito velhos, de 1860 a 1996. Era a segunda edição da “Madeira Wine Experience” promovida por aquela que será – além da imprensa especializada – a mais influente figura da atualidade em Portugal no que respeita à divulgação de vinhos fortificados. Curiosamente, no final da prova Paulo Cruz alargava o leque de convidados para celebrar os 91 anos do Bar do Binho, a histórica mercearia que virou garrafeira e local de culto enófilo no centro histórico de Sintra.

Perante uma seleção de vinhos muito velhos, raros e exclusivos sentimo-nos também únicos. Esta tipologia de prova faz-nos sentir iludidos e desiludidos, empolgados e extasiados. As expetativas estão à partida bastante altas, pelo que qualquer vinho que não corresponda na plenitude ao nosso paradigma de excelência ou surpresa é alvo de observações por vezes cruéis e até infundadas. No outro extremo, os vinhos que mais nos surpreendem são colocados em pódios estratosféricos, esgotam-nos a adjetivação, fazem-nos salivar só de pensar que ainda podemos beber mais um pouco do que resta no copo.

Para mim são sobretudo provas emocionais, onde o grau de subjetividade é elevado, até porque poderá ser sempre chamada à liça a célebre questão da rastreabilidade. Mas, que diabo, não é por desconhecermos o historial pormenorizado destes vinhos desde a nascença que eles devem ser colocados em causa. Mesmo que algo menos positivo lhes tenha acontecido a dada altura, naquelas épocas em que a fiscalização e o controlo estavam a anos-luz dos dias de hoje, todos estes vinhos muito velhos (Portos, Madeiras, Moscatéis, Carcavelos…) são absolutamente fenomenais.

Nestes Madeira não se esperem camadas intermináveis de aromas nem outros excessos de nariz. Se alguns ainda conservam nuances de caramelo, aqueles que mais desafiam os sentidos apresentam breve fruto seco, por vezes algum restolho, quase sempre muitíssima salinidade. A acidez brutal que lhes tem garantido a sobrevivência é senhora para quase nos rasgar as gengivas e fazer com que o final perdure por largos e largos minutos.

 

O Leacock’s Sercial Solera 1860, o Artur Barros Sousa Malvasia Cândida Fajã dos Padres 1934 e o Blandy’s Bual 1920 foram os vinhos que mais me surpreenderam. O Bual será relançado em 2020 e é um exemplo de um vinho Madeira perfeito em tudo – do desafio ao equilíbrio.

Seria uma tormenta para quem não partilhou esta prova detalhar ao ínfimo pormenor cada um destes vinhos. Ouso, todavia, lançar um sincero desafio a todos os que sentem o vinho daquela forma apaixonada, que não se explica. Pelo menos uma vez na vida experimentem provar fortificados portugueses muito velhos, sem atender a rótulos dos grandes nomes e sem preocupações de excentricidade. Apenas pela curiosidade, pela emoção que esse momento irá provocar. Apenas, e já não é pouco, pela incrível ilusão de experimentar vinhos que não morrem, que não se extinguem, que tantas vezes vão além do nosso entendimento.

texto e fotos: José João Santos