Como posso aprender mais sobre vinho, alargar horizontes e espetros de gosto? Com alguma frequência sou confrontado com questões como estas, quase sempre de pessoas que já iniciaram a jornada pelo admirável mundo do vinho mas percebem que poderão evoluir mais em termos de conhecimento.
A resposta/desafio que proponho é muito simples: sair da zona de conforto.

Os conselhos práticos mais óbvios contam-se pelos dedos de uma mão: estudar alguma coisa (através de livros e publicações especializadas, workshops ou formações técnicas mais aprofundadas), viajar pelas mais emblemáticas regiões do país (claro, se possível também do mundo), contactar e conversar com protagonistas da indústria, estar atento às novidades e tendências e… provar, provar, provar. É precisamente neste derradeiro ponto que gosto de me centrar.

A partir do momento em que temos o mínimo conhecimento teórico de contextualização histórico-cultural e de produção de vinho devemos procurar conhecer o maior número possível de vinhos, comparar novos lançamentos a vinhos históricos, perceber diferenças de estilo entre regiões e dentro da mesma região, captar abordagens distintas a uma mesma casta, contrapor vinhos icónicos a vinhos de garagem.

Obviamente, não é algo que se consiga da noite para o dia. É um contínuo processo de descoberta e de aprendizagem, de evolução do gosto, que vai demorar anos e que, a correr bem, nos vai acompanhar pela vida toda. Sim, porque o vinho é de tal forma um expoente de diversidade que quanto mais sabemos acerca dele mais queremos desvendar.

Este processo não tem que ser nem tortuoso nem elitista.

Convém ser um caminho de passo a passo, de compreensíveis avanços e recuos. Mais importante ainda, nunca nos deve atemorizar. Conheceremos vinhos fáceis e vinhos exigentes, provaremos brancos que parecem sumo de maracujá e brancos com uma acidez que ameaça cortar as gengivas. Beberemos tintos sedutores e outros que são forças brutas. Vamos gostar ou detestar rosés, espumantes, cavas e champanhes, Portos, Madeiras, moscatéis, colheitas tardias e até haverá o momento em que nos aventuraremos nas aguardentes vínicas. Mas isso não é preferível a beber o raio do mesmo vinho até sermos velhinhos?

Não tem que ser um caminho elitista porque o entendimento que é devido ao vinho não é de uma elite. O vinho é cultura, nunca deverá ser tido como um qualquer feudo ou clube privado onde só alguns têm permissão para entrar. E, sim, é verdade, podemos encontrar tanto prazer num vinho de 5,00€ como num vinho de 50,00€. Dependerá do momento, da predisposição, do gosto pessoal. E, sim, é verdade, poderá ser tão interessante visitar uma maison em Champagne como um eremita com três hectares de vinha que produz um grande vinho natural nos confins.

O gosto pessoal, como em tudo na vida, vai também evoluindo. Muitos dos vinhos que achamos graça beber no início desta descoberta são hoje desinteressantes. Outros tantos que considerávamos impossíveis de gostar colocámo-los hoje como dos mais desafiadores. Ah, e há também aqueles vinhos que continuamos a gostar do mesmo modo,  hoje como ontem.

Haverá sempre vinhos que serão telas vazias, vinhos que serão papel químico, vinhos monocromáticos, vinhos que não deveriam ter sido mosto. Mas haverá sempre os vinhos que mostram paisagens e refletem terroirs, que são telas apuradas ao detalhe, que nos segredam histórias, que nos convidam para o desconhecido, que nos testam os limites do entendimento.

Não há receitas infalíveis; há sugestões.

Essas sugestões podem partir dos críticos ou revistas com as quais mais nos identificamos ou até mesmo daquele amigo que é maluquinho por vinho e nos vai dando umas pistas. Trata-se, acima de tudo, de um processo de descoberta individual, com o qual nos devemos identificar e sentir bem.

Haverá ainda quem, adepto de terapias de grupo, apenas se sentirá confortável em dar cada passo em conjunto. Mas quando abrimos uma garrafa de vinho e convidamos alguém a partilhá-la não estamos sozinhos nessa descoberta.

Esqueçam-se os aromas de fruta vermelha madura, os toques de especiaria e os finais de boca prolongados. Saiamos da auto-estrada para fazermos um pouco de todo-o-terreno, sempre cientes que podemos ficar apeados.

Há vinhos que nos vão desiludir e que vamos querer não ter provado? Claro que sim, mas também esses nos ficarão retidos na memória. Depois, existem todos os outros, os que serão companheiros de uma vida e os que nos remeterão para uma esfera que nunca ousáramos imaginar, tal o prazer que nos dão.

Haverá sempre vinhos que serão telas vazias, vinhos que serão papel químico, vinhos monocromáticos, vinhos que não deveriam ter sido mosto. Mas haverá sempre os vinhos que mostram paisagens e refletem terroirs, que são telas apuradas ao detalhe, que nos segredam histórias, que nos convidam para o desconhecido, que nos testam os limites do entendimento.

Sair da zona de conforto.

No vinho, tal como na vida, é também isso que nos faz sentir vivos, que nos provoca, que nos desfoca para nos voltar a recentrar, que nos faz ir mais além.