Calma. Este não é um exercício de reflexão acerca das famosas parcerias público-privadas que tanta tinta têm feito correr nos últimos anos e que, tal como os pimentos Padrón, “unos pican y otros no”. Trata-se, sim, de uma humilde análise àquilo que identifico como uma nova panca: Panca Pelo Pinot (PPP). Não sei se repararam, mas ultimamente todos parecem querer alcançar uma espécie de novo pináculo da criação portuguesa, um grande Pinot.

Pinots há muitos, grandes não tantos. A casta Pinot Noir é das mais elogiadas e consegue, no local e nas condições certas, estar na base de vinhos extraordinários. Que o diga a Borgonha, que tem a variedade como bandeira maior e base de alguns dos mais aclamados, referenciados e caros vinhos do mundo (basta citarmos o Romanée Conti). Mas nem só em Première Cru ou em Grand Cru da Borgonha o Pinot Noir tem feito história. Mais recentemente desvendamos bons exemplos em locais tão distintos quanto o Chile, a Nova Zelândia, África do Sul ou até Oregon, nos Estados Unidos, apenas para citar alguns.

A casta é temperamental e difícil. Precisa de climas relativamente frios e frescos, é pouco resistente a pragas e doenças na vinha, tem uma maturação precoce e vindimá-la no timing perfeito é uma questão de escassos dias, por vezes horas. Tem uma predileção por solos argilo-calcários e consegue vinhos de cor rubi aberta e brilhante, com sedutoras notas de cereja e de groselha, muito boa acidez e taninos que podem ser muito suaves ou bastante afirmativos, consoante o vinho que se pretenda atingir. Sim, porque podemos estar perante um bom Pinot Noir para apreciarmos no imediato ou exemplares mais complexos e com maior propensão para o envelhecimento. Curiosamente, alguns vinhos do chamado movimento “natural” apostam na cor, pureza e franqueza do Pinot para exprimir ao máximo a beleza do fruto, por contraponto com exemplos mais trabalhados, que usam barricas de tosta fina e pouca marcada para lhe conferir uma complexidade distintiva.

Havendo milhares de Pinots no mundo do vinho, se a casta fosse fácil muitos outros milhares certamente já existiriam, sobretudo num momento em que aplaudimos vinhos com menor extração e mais fruta, mais leves e menos alcoólicos. E se assim fosse falaríamos e beberíamos Pinots de várias latitudes e longitudes, sem suspirar pelos originais borgonheses. Pois é, entramos na esfera do “se”…

Pelas alminhas, apesar de um dia termos obtido “o melhor Syrah do mundo”, alguém em Portugal estará efetivamente convencido que fará um grande e 100% Pinot de nível mundial?

Encaro, assim, com alguma estupefação a PPP instalada em Portugal. De norte a sul, do litoral ao interior, do continente às ilhas, parece que de repente todos acordaram para o Pinot e apostaram em tentar fazer um grande Pinot. Nada contra as experiências, bem pelo contrário. Aplaudo a experimentação e na área do vinho, da viticultura e da enologia é absolutamente obrigatória para se conseguir evoluir. Mas, pelas alminhas, apesar de um dia termos obtido “o melhor Syrah do mundo”, alguém em Portugal estará efetivamente convencido que fará um grande e 100% Pinot de nível mundial?

A crer no solo, o argilo-calcário da Bairrada poderia ajudar. A crer no clima, o Dão – carinhosamente apelidado de Borgonha portuguesa – poderia até ter potencial. No entanto, nenhuma destas regiões é o berço exigente da casta. Seja no Centro litoral ou interior, seja em Trás-Os-Montes, no Minho, no Douro, na Beira Interior, no Alentejo, em Lisboa, Tejo, Setúbal, Algarve, Açores (…), poderão ser alcançados vinhos decentes de Pinot Noir mas dificilmente (para evitar a palavra “nunca”) algum de um patamar que esteja ao nível dos melhores do mundo. A questão é muito simples: não temos o terroir.

Inquieto-me, por isso, quando me deparo com situações como aquela com que me defrontei recentemente. Provo, de um dos mais clássicos e referenciados produtores bairradinos, um tinto de Pinot Noir que em nada me entusiasmou. Questiono o porquê do vinho e é-me dito que se trata de uma sugestão do enólogo da casa com o justificativo de que o que está a dar agora no mundo é o Pinot. Logo a seguir fico rendido com uma Baga de 2017, irresistível na cor, no nariz e na boca, que em breve chegará ao mercado por uns escassos 9,00€ de PVP. Uma abordagem diferente à Baga, muito subtil, ainda assim muito bem conseguida. Aquela Baga é o melhor Pinot Noir que aquele produtor pode almejar. Basta saber e querer explicar isso ao mundo. Disse-o ao produtor. Terei sido convincente?

Experimentem-se todas as castas, uma, duas, três, as vezes que forem necessárias. Não importa se são nacionais ou internacionais, embora acredite que só temos a ganhar com o reforço da aposta nas castas portuguesas e no estudo e experimentação de um maior leque de variedades autóctones ainda não suficientemente estudadas e analisadas. Mas, por favor, não insistam em casos perdidos à partida ou sustentados em pseudo questões comerciais. Se formos por aí, alguém me explica por que razão um consumidor esclarecido em Londres ou Nova Iorque pedirá um Pinot Noir português em detrimento de um francês ou neo-zelandês?