Pela primeira vez, Portugal deve superar a fasquia dos 800 milhões de euros em exportações de vinho, um elixir capaz de ultrapassar todas as dores físicas de viagens constantes de avião e um revigorante para a alma que é, simultaneamente, reflexo do trabalho notável de instituições, organizações, empresas e produtores. É evidente que continua a faltar muito para que a famosa “marca Portugal” conste do topo de prioridades, mas os exóticos vinhos lusitanos, como ainda são encarados em vários mercados externos, afirmaram-se nos últimos anos para lá da reticente fronteira do “e se provássemos isto?…”.

De acordo com estimativas divulgadas à Imprensa pela ViniPortugal, o órgão responsável pela promoção nacional e internacional do vinho português, no primeiro semestre deste ano alcançaram-se 370 milhões de euros de vendas nos mercados externos, o que aponta (porque o segundo semestre de cada ano é sempre o mais forte em vendas) para que seja ultrapassada a barreira – quase psicológica, diria – dos 800 milhões.

Entre outros mercados, Brasil, Canadá, EUA e China crescem a grande ritmo para as exportações de vinho português, confirmando a tendência dos últimos anos. Angola, como seria de prever, continua uma incerteza, dando sinais de alguma recuperação, lenta.

No caso do Brasil é notável Portugal afirmar-se como segundo maior exportador, superando a Argentina e até mesmo a Itália. A Argentina, pelo preço mais competitivo, e a Itália, pela perceção de maior glamour e qualidade (além de também ser um dos países com mais ligação cultural e afetiva ao Brasil), eram inatingíveis há uns anos. Ora, leva-me isto a crer que só pode existir uma explicação possível, para lá de um certo carinho cultural dos brasileiros por Portugal: o trabalho das instituições, empresas e produtores de vinho português, sublinhado na última década no Brasil, apesar de todas as convulsões políticas, imprevisibilidade económica e da penosa carga fiscal, começou finalmente a dar frutos (de recordar que Portugal havia superado pela primeira vez a Argentina, muito recentemente, em comportamentos trimestrais). E não nos esqueçamos que, regra geral e independentemente da gama, um vinho português (um vinho europeu) é no mínimo três vezes mais caro em prateleira do que um vinho argentino ou chileno, que beneficiam de acordos estabelecidos bilateralmente e entre países latino-americanos.

O Canadá, país de monopólio, tem sido outro importante território a desbravar. Aliás, para os vinhos DOC Douro, por exemplo, há já algum tempo que aquele mercado passou a ser o mais importante em termos de exportação. Vida mais difícil no caso dos Portos.

Nos EUA, a atual grande montra mundial do vinho, o crescimento também existe e vai muito além do fenómeno dos vinhos brancos leves e borbulhantes “made in” num certo Portugal. Aproveitando o embalo da crítica norte-americana, rendida à “the next big thing” chamada Portugal, temos assistido a um crescimento consolidado. Todos perceberam que os EUA, enquanto mercado, representam um conjunto de grandes países, com especificidades muito estaduais. Ali, naquela imensidão, o vinho português é o nicho do nicho e deverá procurar em estabelecimentos selecionados de restauração mais do que uma porta de entrada, uma garantia de consolidação. É que se há consumidor de vinho no mundo sempre disponível a experimentar vinhos novos, independentemente da origem, é o norte-americano. Se nesta primeira fase Portugal está a beneficiar desse comportamento, importa no futuro insistir em dar sempre algo de novo, que extravase os chavões dos Cabernet e dos Chardonnay – os próprios norte-americanos sabem fazê-los muito bem.

Entre outros mercados, Brasil, Canadá, EUA e China crescem a grande ritmo para as exportações de vinho português, confirmando a tendência dos últimos anos.

E a China? Não pensemos em Macau, que essa é uma batalha perdida. Percebeu-se, bem, que a aposta teria que passar por Hong Kong. Beneficiando de isenção de taxas de importação, o “hub” ali criado recebe vinhos de todo o mundo e é a partir dali que os ajuda a implementar não apenas pela China continental, que começou a beber (e a produzir) vinho mas um pouco por toda a imensa Ásia. Os chineses consomem marcas, são difíceis de conquistar, é certo, mas uma vez conquistados criam ligações afetivas às marcas. Portugal não tem os châteaux franceses que tanto apreciam, mas tem conquistado com as armas de que dispõe.

A terminar, uma nota de surpresa quanto ao comportamento do mercado nacional, desta vez através de dados do IVV – Instituto da Vinha e do Vinho. O Alentejo continua líder, mas o Vinho Verde é ultrapassado, na segunda posição da distribuição e restauração, pela Península de Setúbal. Estarão os Vinhos Verdes condenados a perder guerras de volume e de preço, no futuro, para regiões como Península de Setúbal ou até mesmo Lisboa (sendo que a região de Lisboa está mais voltada para a exportação)?

Sou dos que há muito pensa que o futuro de longo prazo do Vinho Verde só tem uma saída: qualidade, qualidade, qualidade. Aliás, não seria de se esperar outra coisa de uma região que tem tudo para ser a Meca dos grandes vinhos brancos portugueses.