Feiras de supermercado: os absurdos

Nunca me passou pela cabeça ser produtor de vinho. Respeito profundamente quem o é e acredito que uma maioria está no setor por uma profunda paixão e convicção, procurando fazer do amor à causa também um negócio. Nunca me passou pela cabeça ser produtor, mas se algum produtor der um tiro na cabeça depois de ver o que hoje vi, parece-me bastante compreensível…

Escrevo esta crónica horas depois de ter saído de um supermercado, mais concretamente após ter abastecido o meu carrinho de compras com uma meia dúzia de garrafas de dois vinhos para o dia a dia que, tal como dezenas e dezenas de outros rótulos, estavam em promoção. É normal que assim seja nesta época do ano, onde as feiras de vinho são chamariz nas grandes superfícies. Adquiri um vinho que habitualmente é vendido a cerca de 8,00€ com pouco mais de 2,00€ de desconto e um outro, que se situa num patamar de 4,00€ beneficiando de um desconto de 1,00€. São vinhos descontraídos e fáceis de apreciar, que darão prazer de consumo no arranque de refeições leves ainda nestes dias de transição entre o verão e os primeiros (e tímidos) rasgos de outono.

Por defeito profissional passei largos minutos entre as prateleiras do hipermercado, num exercício de análise e comparação de preços entre vinhos. Volta e meia ficava espantado com algumas baixas de preço, até que me deparo com uma secção que me parece estar para lá do aceitável: um vinho anunciado como tendo um “super preço” com um desconto de… 65%! Ao lado da pornográfica promoção coabitavam uma mão cheia de outros vinhos, anunciados com uns tentadores 50% de desconto. Pois bem, não resisti. Tirei algumas fotografias e ainda com cara de parvo comentei para mim: “Tenho que escrever sobre isto”.

Vender a qualquer preço pode até solucionar um aperto momentâneo mas nunca será uma estratégia duradoura. Sabendo-se que as grandes superfícies são o local de eleição de venda de vinhos e possuem um poder negocial desmesurado parece-me mais do que evidente que competirá aos produtores terem a coragem de dizer “não” à venda a qualquer preço.

Não encaixo num papel de justiceiro e admito que alguns me possam considerar ingénuo, mas parece-me uma obrigação moral denunciar o que considero ser uma violação do bom senso e de boas práticas de promoção, um atropelo ao entendimento do que é um produto chamado vinho.

Admito que muitos até o possam interpretar dessa forma, mas para mim o vinho não é um refrigerante ou um parafuso. É muito mais do que isso, por tudo o que representa antes de estar confinado a uma garrafa numa prateleira de loja.

Como justificar uma promoção de 65% – ou até mesmo de 50% – num vinho? Existe negociação prévia entre a superfície comercial e o produtor? Foi um produtor desesperado que pediu à superfície para vender a qualquer preço porque necessita esvaziar uma adega para a encher com o resultado de uma nova vindima? O distribuidor tem conhecimento da promoção? Concorda ou até a sugeriu? A grande superfície quer despachar vinho a todo o custo, doa a quem doer?

Tão ou mais importante, o consumidor. Como se comportará o consumidor que habitualmente paga 9,99€ por um determinado vinho ao ver que o dito cujo está à venda a 3,49€ numa feira de vinhos? Vai aproveitar e carregar o carrinho ou nesse preciso instante sente-se enganado e não regressará à marca?

Vender a qualquer preço pode até solucionar um aperto momentâneo mas nunca será uma estratégia duradoura. Sabendo-se que as grandes superfícies são o local de eleição de venda de vinhos e possuem um poder negocial desmesurado parece-me mais do que evidente que competirá aos produtores terem a coragem de dizer “não” à venda a qualquer preço. É, aliás, preocupante que famosas marcas de vinho estejam, várias vezes ao ano, a ser alvo de baixas de preço na ordem dos 30 ou 40%.

Serei só eu a considerar que isso não é fazer marca, é matar a marca?

texto e foto: José João Santos