Algum dia conseguiremos imaginar a Borgonha sem Pinot Noir? Muitos vaticinam que esse dia estará apenas à distância de duas ou três décadas, tomando como ponto de partida as alterações climáticas e o aquecimento global. Ficaria assim em risco a mais emblemática casta tinta da Borgonha, que certamente passaria (passará?) a porta-estandarte de regiões mais frescas.

Talvez uma boa parte dos tintos da Borgonha deixasse de ter a cintilante cor rubi aberta e os inimitáveis aromas de cereja, morango e até algum fruto silvestre. Quem sabe não se seguiriam as notas de algum chocolate e especiaria, antevendo-se que uma outra casta, a Syrah, lhe possa tomar o protagonismo na mais ambicionada região de vinhos da atualidade.

E na Austrália? Continuará a dominar a Syrah (Shiraz) ou o termómetro, sempre a subir, obrigará a apostar em castas mais confiáveis nesse cenário, como a Grenache?

Não se tratando de um exercício de adivinhação, várias cartas vão sendo colocadas em cima da mesa. Afinal, o aquecimento global é uma realidade e a viticultura, a agricultura em geral, tem que saber lidar com novas realidades.

Se nada é possível fazer-se para contrariar fenómenos atmosféricos repentinos e extremos, alguma coisa pode ser pensada numa perspetiva de médio e longo prazo. Com a antecipação generalizada das datas de início de vindima, a escassez de água, os frequentes episódios de seca e os ataques de pragas e doenças na vinha, as regiões de clima mais quente estão a ser das mais atingidas. Inevitavelmente, muitas das variedades que desde sempre lhes estiveram associadas poderão ter que repartir protagonismo ou, mais ainda, de se sujeitar à migração para locais mais frescos.

Entram nesta equação as castas mais suscetíveis a doenças na vinha, mais intolerantes ao calor extremo e continuado, mais delicadas. Ganham protagonismo castas mais resistentes, de película mais grossa, de maior tolerância à seca e ao calor, à escassez de água e de nutrientes no solo, de maturação mais tardia. À escala global podemos assistir a um reforço do domínio do Cabernet Sauvignon e a uma aposta ainda mais incisiva numa casta branca como Chenin Blanc. E conquistará ainda mais terreno uma variedade como a Grenache, por exemplo?

Ganham protagonismo castas mais resistentes, de película mais grossa, de maior tolerância à seca e ao calor, à escassez de água e de nutrientes no solo, de maturação mais tardia.

O xadrez tem-se alterado de tal forma que já não basta procurar mais altitude ou diferentes exposições solares dentro de uma mesma região. Passou a ser necessário ir a jogo com outras peças.

Não por acaso, as grandes empresas mundiais de vinho têm intensificado os estudos de comportamento de castas importando, nacional e internacionalmente, um conjunto de variedades menos usuais. Procuram-se alternativas, bons resultados, novas opções que possam validar estratégias de alguns anos porque a vinha é sempre um investimento.

Numa época em que o perfil mais aplaudido dos vinhos é o da subtileza em detrimento da força bruta, o desafio torna-se ainda maior. Mais do que sublinharmos que a Touriga Franca será a base do encepamento tinto no Douro ou que a Alicante Bouschet desempenhará cada vez mais protagonismo no Alentejo, importa continuar a analisar e a testar, identificar castas que até aqui possam ter ficado para planos secundários ou mesmo terciários. Serão elas as novas estrelas de cada região.

Uma espécie de experimentalismo obrigatório, em nome da salvaguarda das próprias regiões. E não há que ter medo porque nenhuma casta é um exclusivo de um local. Importa, isso sim, perceber as castas que um determinado local abraça de braços abertos, mesmo que à sombra estejam 40ºC.

_José João Santos