Nem anjos nem demónios

Por demasiadas vezes caímos na tentação de sobrevalorizar os pequenos produtores e demonizar as grandes empresas. Usamos até a expressão “indústria do vinho” para separar uns dos outros, caindo no erro de não perceber que todos – grandes, médios e pequenos – constituem essa indústria.

Numa proporção quase paralela ao conhecimento que vamos adquirindo acerca de vinho tendemos a ficar mais elitistas, nos casos mais extremos a ponto de esse elitismo se tornar… pacóvio.

Sedentos de experimentar os resultados de novas formas de fazer e vinhos que arrisquem outros caminhos, mais facilmente colocamos no topo os chamados produtores de garagem e deixamos para patamares mais baixos as grandes casas.

Nem anjos nem demónios.

As maiores empresas mundiais de vinho têm tido, ao longo dos séculos, um papel absolutamente decisivo para a sustentabilidade económica e financeira do setor. Sim, porque é necessário olhar para o vinho como um negócio, não que ele seja uma estrada sem fim para o enriquecimento imediato mas porque apenas com contas equilibradas e alguma margem de lucro se consegue investir e reinvestir, ou seja, se consegue ir mais longe. Salvaguardando as devidas economias de escala, isso é válido para o gigante do vinho e para o produtor de garagem.

A verdadeira descoberta do vinho nunca poderá ficar refém de rótulos. E muito menos de generalizações ou preconceitos.

Os gigantes do vinho, insistamos nessa hipérbole, resistiram a anos bons e maus, a colheitas fantásticas e a colheitas horríveis, a modas e a tendências, a ciclos favoráveis e a depressões. É graças a eles que muitas regiões do mundo são hoje o que são, que muitas das capitais do vinho são hoje o que são, que muitas outras indústrias são hoje o que são. Foram esses gigantes o sustento de milhares e milhares de famílias em todo o mundo e ajudaram a que o vinho nunca tivesse quebrado e se tornado algo de insignificante em determinados momentos da história. E se hoje o vinho de qualidade continua a ter preços acessíveis em larga medida o devemos às grandes empresas.

Irrita-me, por isso, aquilo que considero ser um provincianismo de alguns habitués do vinho, quando de truz soltam críticas aos grandes nacionais, por vezes de forma no mínimo infundamentada. Talvez perante um gigante de Champagne, de Bordéus, da Califórnia, da Argentina ou do Chile a atitude seja bem diferente…

O vinho pode ter vários entendimentos. Muitas estradas, muitos caminhos podem ser escolhidos para alcançar um mesmo resultado: fazer um bom vinho.

Haverá sempre vinhos mais desafiadores que outros e eu não o nego – interesso-me muito mais rapidamente por um vinho que considere desafiador. Com isso em mente procuro manter os pés no chão e fazer o esforço quotidiano de perceber o tal mapa de estradas e de caminhos. Não é por ser de um gigante que um vinho é melhor ou pior; não é por ser de garagem que o devo aplaudir de pé.

Tal como os de garagem, também os gigantes conseguem fazer vinhos memoráveis, enormes, tremendos. Há rótulos, em todo o mundo, que o provam. Todavia, a verdadeira descoberta do vinho nunca poderá ficar refém de rótulos. E muito menos de generalizações ou preconceitos. Quem no vinho pensar que tudo se resume a anjos e demónios embarca numa tonta caça às bruxas.

texto e foto: José João Santos