Frequentes tempestades de granizo, incêndios de proporções inimagináveis, ventos ciclónicos, inundações históricas… Aproxima-se o fim do mundo, está tudo maluco ou simplesmente a viticultura tornou-se numa espécie de desporto radical?

Não foi há tanto tempo assim. Com um dos mais experimentados enólogos do país, em plena vinha, a dada altura a conversa deriva para os humores de S. Pedro, a necessidade de experimentar castas mais resistentes a um local que entretanto se tornara diferente, a pertinência de repensar algumas práticas de viticultura. E eis que sou surpreendido com uma tese que, em abono da verdade, é partilhada por muitas outras almas.

Defende a dita tese que aquilo a que se convencionou apelidar de alteração climática não é mais do que um ciclo. A sustentação está na análise dos últimos dois séculos, muito em particular, acreditando-se que a cada 50 anos existe uma inversão de tendência climática. Ora, seguindo esta linha de pensamento – que ao mesmo tempo me parece mais uma crença do que propriamente uma análise rigorosa – estaremos desde há alguns anos a atravessar um ciclo quente, estando à espreita um ciclo frio para os nossos filhos e parte da vida dos nossos netos.

Não vou por aí. Dando de barato que possamos estar a viver no tal ciclo quente, julgo demasiado evidente que o clima está a alterar-se substancial e rapidamente. Não apenas os termómetros sobem como os fenómenos naturais extremos que durante anos pareciam delimitados a determinadas zonas do mundo podem hoje acontecer, e com frequência, na nossa rua.

Olhemos a viticultura e este ano de 2018. Esqueçamos por momentos Portugal e vejamos um quadro mais macro.

Fortes tempestades de granizo arrasaram boa parte da produção de uva em Bordéus, no mês de maio, e na Borgonha, em julho. Na Califórnia, incêndios severos e frequentes têm transformado paraísos de vinhas e de enoturismo em cenários dantescos. Pelo contrário, os alemães exultam de alegria. A onda de calor que varreu o Centro e o Norte da Europa gerou muitas dores de cabeça a uma larga franja de agricultores germânicos à exceção dos viticultores, que este ano conheceram uma das mais antecipadas vindimas da história, com maturações muito mais uniformes do fruto.

Selecionar castas de películas mais resistentes ao calor, plantar a altitudes mais altas outras variedades menos resistentes, potenciar os nutrientes do solos, gerir corretamente a água disponível, tornar cada folha de videira o primeiro escudo para o cacho de uva.

Se a viticultura (a agricultura, de um modo geral) pode ser das mais gratificantes atividades humanas – não em termos monetários mas nos aspetos emocional e empreendedor –, cada vez mais se tornou numa espécie de desporto radical.

Se é fundamental respeitar o pulsar da natureza, não menos importante é garantir um acompanhamento contínuo, prevenindo e atuando aos primeiros sinais de pragas, antecipando com maior rigor o próximo ciclo vegetativo da planta. O madrasto é que mesmo assim tudo pode ficar comprometido à mercê de uma qualquer zanga da dita mãe natureza.

A par dessa atenção redobrada parecem-me óbvias algumas outras preocupações: selecionar castas de películas mais resistentes ao calor, plantar a altitudes mais altas outras variedades menos resistentes, potenciar os nutrientes dos solos, gerir corretamente a água disponível, tornar cada folha de videira o primeiro escudo para o cacho de uva. Nada disto é garantia absoluta de um bom resultado, mas ficarmo-nos por crenças à espera de novos ciclos não me parece a melhor opção.