Vinho de talha

Até que ponto poderia o vinho de talha beneficiar de um sistema de lançamento e distribuição no mercado semelhante ao Beaujolais Nouveau? Poderia ser uma forma de arrepiar caminho no sentido de uma definição mais apertada deste tipo de vinho?

Aprecio mais uns do que outros. Aliás, como acontece com qualquer outra tipologia de vinho. Reconheço-lhes tipicidade, elogio-lhes o carácter sincero e aberto que muitos apresentam, mas também confesso algum desapontamento com exemplares que têm surgido demasiado maquilhados.

Em boa hora, o Alentejo conseguiu devolver à ribalta o vinho de talha. Não se tratando de um expoente máximo de vinho, a verdade é que suscita bastante curiosidade, vale pelo rico historial e num mundo cada vez mais sedento de novidades fora do “mainstream”, o vinho de talha surge para o marketing como uma refeição suculenta se apresenta aos olhos de um esfomeado.

A tradição ancestral trazida ao Alentejo pelos romanos pressupõe que o vinho seja, em todo o processo, vinificado e estagiado em talhas (potes, ânforas de barro, como lhe queiramos chamar). E a visão mais purista do vinho de talha continua a defender isso mesmo, admitindo como “tecnologia de ponta” o eventual recurso a mesas de ripanço (para desengaçar os cachos manualmente). Tudo o resto, talha, talha, talha.

Há, por outro lado, uma visão mais modernista do que pode ser o vinho de talha. De acordo com essa abordagem, a talha é apenas usada na fermentação. O vinho é depois trasfegado para cubas de inox ou de madeira, onde estagia, até ser engarrafado.

Não veria qualquer desvantagem em enquadrar-se o vinho de talha num sistema semelhante ao que acontece no sul da Borgonha, com os Beaujolais Nouveau – vinhos do ano descomplicados e agradáveis de beber, oficialmente lançados na terceira quinta-feira do mês de novembro a seguir à respectiva vindima (por alturas do São Martinho, facilitemos assim o calendário), em festa e com promoção em larga escala. Os tais Nouveau circulam até agosto do ano seguinte à vindima e, depois, repete-se o ciclo.

Independentemente da opção seguida, puristas e modernistas estão de acordo quanto à mais-valia de apresentar no mercado um vinho de talha. E o fenómeno tem ganho proporções tais que há casos em que importadores questionam fornecedores (produtores) acerca da existência ou não de um vinho de talha no portefólio. Se o tiverem, querem-no; se não houver, torcem o nariz.

O mundo anda curioso, o setor e a região agradecem.

Tratando-se, indiscutivelmente, de uma importante mais-valia para o Alentejo, parece-me evidente a necessidade de preservar e não adulterar o conceito do vinho de talha. E em termos promocionais e de comercialização, não veria qualquer desvantagem em enquadrar-se o vinho de talha num sistema semelhante ao que acontece no sul da Borgonha, com os Beaujolais Nouveau – vinhos do ano descomplicados e agradáveis de beber, oficialmente lançados na terceira quinta-feira do mês de novembro a seguir à respectiva vindima (por alturas do São Martinho, facilitemos assim o calendário), em festa e com promoção em larga escala.

A verdade é que o sucesso ao longos dos anos tem sido tanto, a ponto de a produção ficar quase toda reservada antes sequer de o vinho ser lançado, com o tal mundo (e, neste particular, a Ásia em plano destacado) a querer provar o primeiro vinho desse mesmo ano. Os tais Nouveau circulam até agosto do ano seguinte à vindima e, depois, repete-se o ciclo.

Talvez um modelo semelhante a este pudesse ajudar a preservar o espírito do vinho de talha e configurasse um compromisso saudável entre tradição e negócio. Afinal de contas, é um património, um valor do Alentejo que muitas outras regiões certamente gostariam de também ter.

Para os mais curiosos acerca dos vinhos de talha aconselho, por fim, os vídeos que podem ser visionados neste endereço: http://vinhodetalha.vinhosdoalentejo.pt/

E, com a vindima concluída, daqui ao São Martinho é um pulinho.

texto e foto: José João Santos