Chegado aos 40, se fosse um vinhedo como deveria ser encarado? Com uma excelente idade para alcançar um bom vinho? A meio do percurso para alcançar algo ainda melhor? Simplesmente morto e enterrado, valendo não mais do que umas peças para lenha no inverno? Que diabo, se os comentadores de futebol garantem que um jogador atinge a plenitude aos 27, 28 anos, qual a idade ideal de um vinhedo?

Não tenho resposta para esta última questão e é provável que essa resposta não exista. Sabemos, isso sim, que apenas a partir do quarto ano após plantação uma vinha proporciona matéria-prima de boa qualidade para se obter vinho. A partir daí falará a mãe natureza, com o viticultor, claro, a dar uma ajuda naquilo que for possível.

A vida útil de uma vinha é um tema que suscita discussões frequentes.

Especialistas internacionais em viticultura têm lançado alertas preocupantes, boa parte prevendo que uma vinha apenas tenha um prazo de duração entre os 15 a 20 anos após ter sido plantada, devido à forma como a viticultura convencional trabalha e ao facto de as alterações climáticas serem bem mais do que uma tese, uma evidência.

Há ainda muitas outras perspetivas de profissionais da viticultura e da enologia que argumentam que uma vinha apenas deverá ser mantida durante 25 a 30 anos após a plantação, sob o argumento de daí em diante baixarem signficativamente os índices de produção ou aumentarem a imprevisibilidade.

Mas, o que é uma vinha velha?

No chamado Novo Mundo do vinho, uma vinha com larga maturidade é senhora de uns 20, 25 anos (embora haja honrosas exceções, por exemplo na África do Sul, onde vinhas quase centenárias originam rótulos sublimes… o que nos poderá conduzir a outra eterna discussão, a de encarar o território sul-africano como sendo Velho ou Novo Mundo). Na Velha Europa, a fasquia pode aumentar substancialmente e até dentro de um país, de região para região. Pois bem, tomemos o exemplo português.

Uma vinha velha em Portugal será planta para uns 70, 80, 90, 100 ou mais anos. Há mesmo casos de plantas pré-filoxera, que continuam a produzir. O que fazer? Arrancar ou preservar?

Não sou fã de absolutismos e fico desiludido quando o debate acerca das vinhas velhas se resume à ideia de arrancar ou continuar com as plantas. Obviamente, não é por um vinho ser obtido a partir de vinhas velhas que será melhor do que um outro, de uma vinha jovem, ainda que esse seja um bom argumento de marketing, recorrentemente usado, diga-se. Todavia, não acredito que o ideal seja substituir tudo por vinhas novas, sob o argumento de aumentar a produção, identificar e controlar devidamente as castas.

Seja de que tipo forem, os exageros nunca combinam com vinho.

Muitos viticultores, produtores e enólogos que arrancaram vinhas velhas estão amargamente arrependidos. Vários outros que o fizeram sorriem de orelha a orelha porque acabaram, literalmente de raiz, com um problema. Sejamos sensatos. Se uma vinha velha não consegue aportar nada de novo, de distinto, de melhor, por que razão insistir?

Acredito, por convicção, que uma vinha velha merece uma oportunidade e paciência acrescidas, tal como uma avó que visitamos e que nos acolhe de braços abertos com mais uma estória para contar.

Portugal está repleto de exemplos que demonstram um património vegetativo que é uma espécie de museu vivo e ao ar livre. Cito apenas três exemplos: as centenárias vinhas de Colares, em chão de areia, com pés de vinhas que parecem troncos de árvores a serpentear pelo terreno; as incríveis vinhas velhas da Serra de São Mamede, no Norte do Alentejo, hoje tão cobiçadas mas que durante anos foram ignoradas e apenas preservadas por velhotes, que as cuidaram como se de jardins se tratassem; a hoje célebre vinha do Abandonado, de Domingos Alves de Sousa, que o próprio e o filho, Tiago, resgataram de estado débil, quase decrépito, reabilitando-a com pinças e colocando-a na base de um vinho monstruoso do Douro. Felizmente, poderia citar centenas de outros exemplos, da Madeira ao Minho.

Acredito, por convicção, que uma vinha velha merece uma oportunidade e paciência acrescidas, tal como uma avó que visitamos e que nos acolhe de braços abertos com mais uma estória para contar. A concentração e o equilíbrio natural de um “blend” feito na vinha – mesmo que várias das castas não tenham hoje nenhum tipo de interesse – são um património que deveremos, todos, como portugueses, valorizar e apresentar enquanto fator de diferenciação em termos internacionais. Mas também reconheço, serenamente, que em termos racionais seja difícil traçar uma fronteira clara entre uma vinha velha de baixo rendimento ou uma espécie de natureza morta.

Sem extremismos, salve-se e valorize-se o que tiver salvação; substitua-se e plante-se de novo quando não houver outra solução. Sem precipitações, sem dramatismos e, sobretudo, sem discursos que tantas vezes denotam partidarite de pensamento.