Um para todos

Um Romanée Conti servido numa tradicional malga de Vinho Verde tinto? Um espumante apresentado num copo de Cabernet? Será que com cinco euros consigo garantir um conjunto digno para um jantar com quatro pessoas?

Não será necessária uma busca exaustiva para descortinar nos armários dos nossos pais ou avós as famosas taças outrora usadas para servir espumante, de haste média, bojo curto e bastante aberto. Por mais revivalistas que sejam estes nossos dias, hoje apenas nos cruzamos com esta tipologia de copos quando solicitamos alguns cocktails ou quando resgatamos do pó o património vidreiro de progenitores e seniores.

Facilmente percebemos por que razão esse formato é desadequado à apreciação de espumantes e champanhes: o cordão do vinho (as famosas borbulhas) enfraquece e desaparece rapidamente e também muito mais cedo o vinho fica quente e parco em componentes aromáticas, mercê da enorme superfície que, de truz, fica em contacto com o oxigénio. Mas serão os flûtes os copos mais indicados para a apreciação de espumantes e champanhes?
Se forem leves e frutadinhos, pois muito bem; se tiverem estágio prolongado e maior complexidade aromática, por que não um copo apontado para vinho branco?

Ao longo dos últimos anos, uma casa austríaca que revolucionou o universo dos copos para vinho tem promovido insistentes workshops que procuram demonstrar que para cada tipologia de vinho existe um determinado copo. As sessões valem sobretudo pela curiosidade e experimentação, sendo certo que muitos dos caminhos apontados se revelam os mais indicados. É marketing, claro que sim, mas é uma evangelização bem conseguida, sobretudo se tiver como interlocutor uma das mais brilhantes mentes deste universo de copos para vinho – Georg Riedel. Quem mais poderia convencer meio mundo que existe um copo ideal, em cristal, para apreciar… Coca-Cola, praticamente igual, em formato, ao da tradicional garrafa de vidro do refrigerante?

Já participei numas quatro sessões dessas e, na mais recente, comprovei as fraquezas das taças de espumante e as virtudes dos copos de vinho branco para este estilo borbulhante. Sim, são detalhes, mas marcam a diferença e levam os mais exigentes a serem precisamente isso, exigentes, com os copos que são usados para servir vinho.

Riedel, Schott Zwiesel, Spiegelau até ao “crème de la crème”, os Zalto. A verdade é que qualquer copo devidamente selecionado não nos deixa ficar mal, pelo contrário, ajuda à fruição do vinho.

Não deixa de ser curioso que uma autêntica autoridade venha defender e apresentar um único copo para qualquer vinho. O design escolhido – haste longa, bojo aberto e borda mais fechada – permite agitar o vinho para libertar aromas e concentrá-los no topo do copo, contribuindo para uma apreciação convincente.

Por haver tamanha escolha e pormenor nesta coisa de copos, chamou-me particular atenção a apresentação de um novo produto com assinatura de um dos mais respeitados (senão o mais respeitado) nome do vinho, Jancis Robinson. A jornalista, crítica de vinhos e escritora britânica anunciou recentemente a “1 Collection”, uma parceria com o designer Richard Brendon, que se traduz em dois copos e dois decanters – um único copo para vinho, um copo para água, um decanter para vinhos jovens e um decanter para vinhos velhos (consultar https://www.jancisrobinson.com/articles/my-new-glass-and-decanters ).

Não deixa de ser curioso que uma autêntica autoridade venha defender e apresentar um único copo para qualquer vinho. O design escolhido – haste longa, bojo aberto e borda mais fechada – permite agitar o vinho para libertar aromas e concentrá-los no topo do copo, contribuindo para uma apreciação convincente. Mas, um copo para todos os vinhos?

Colocando de lado eventuais questões de marketing, vendas, negócio e produto, percebo o raciocínio que o fundamenta. Afinal, nem todos os que gostam de vinho conseguem ter orçamento e espaço físico para armazenar uma coleção infindável de copos. Se houver um suficientemente eficaz para todas as tipologias de vinho…

Pessoalmente, nunca fui grande adepto de copos enormes para apreciação de brancos velhos ou tintos encorpados. Tal como me provocam uma certa frustração os minúsculos cálices sugeridos para apreciação de vinhos fortificados. Um copo devidamente proporcional, relativamente leve, minimamente robusto, nunca nos vais deixar mal ou prejudicar o vinho. E não é obrigatório ser de qualquer das marcas que anteriormente mencionei. Em qualquer loja ou grande superfície é hoje possível adquirir copos amigos da carteira, esteticamente atrativos e funcionais, alguns com preços de prateleira pouco acima de um euro. Leva-me isto ao derradeiro ponto.

É inadmissível neste tempo continuarem a existir restaurantes – alguns de grande qualidade gastronómica – que não tenham copos decentes para vinho. Usem as desculpas que quiserem, é inadmissível. Aliás, se num restaurante pagamos sempre bem (por vezes até bem demais) por uma garrafa de vinho, o mínimo que nos poderão fazer é servi-lo à temperatura indicada, num copo correto. Não é pedir muito.

texto e foto: José João Santos