Calculo que quando alguém diz que um vinho lhe lembra o armário da avó se esteja a referir a um vinho velho ou a uma boa recordação. Da mesma forma que acredito que quando alguém diz que o vinho lhe sabe a mar esteja a referir-se à sensação de salinidade que encontra no copo. Mas, em que ficamos quando o assunto é a mineralidade?

Tenho que admitir. Decido trazer a esta crónica o detalhe da salinidade poucos dias depois de ter provado um vinho que, no contrarrótulo, assegurava ter 2% de água do mar Mediterrâneo na composição do “blend”, cabendo os restantes 98% à uva, em concreto de duas castas brancas. O vinho não é português e fico feliz por em Portugal termos um conjunto importante de vinhos – brancos, tintos e fortificados – que, apenas e só devido à proximidade marítima das vinhas, possuem o tal toque salino, sem necessidade de outros artifícios enológicos ou de marketing.

Descrever por palavras um vinho é mais difícil do que se possa imaginar. Nesse particular, admiro a forma concisa, concreta e eficaz que publicações como a Wine Spectator adotam – uma singela linha de texto e eis o descritivo que ajuda a entender a pontuação atribuída a um determinado vinho. Obviamente, em inglês escreve-se muito menos para se dizer a mesmíssima coisa em português e não menos verdade é que todos nós, descendentes da escrita de Camões, gostamos de romancear aquilo que tão-somente se poderá cingir ao registo da cor, dos principais aromas, da estrutura e da impressão geral e final do vinho. Dá trabalho, pois dá, mas em duas linhas faz-se e com linguagem que o comum dos mortais consegue entender.

Nos tempos em que fumar era “cool”, os anti-tabágicos fartavam-se de afirmar que beijar uma mulher que fumasse era igual a lamber um cinzeiro. Nunca esclareci totalmente essa teoria, na medida em que nunca lambi um cinzeiro. Mas, em termos de vinho, confesso que nunca precisei lamber uma pedra molhada para percecionar um descritivo relativamente comum nos vinhos, sobretudo nalguns brancos, que aponta precisamente para isso, pedra molhada.

Há mais, muito mais. Mina de lápis ou grafite? Petróleo ou querosene? Sílex ou giz? Frutos secos ou bolo inglês? Iodo ou maresia? Relva cortada ou campo verdejante? Tintura de iodo ou farmácia? Já li todos estes descritivos acerca de vinhos, com todo o grau de subjetividade inerente.

O vinho, o bom vinho, é demasiado precioso para se ficar por discussões que muitas vezes quase lembram o sexo dos anjos.

Aqui por casa, quando decido questionar aromas de um vinho, recebo sempre respostas que quase nunca falham: se é branco será frutado, se for tinto terá frutos vermelhos. Há ainda laivos de toques de madeira, dizem-me no caso de alguns tintos, e notas de mel, nos fortificados. Felizmente, tudo acaba com um sorriso e na descoberta de mais algum aroma… ou memória de aroma.

Parece-me, por isso, algo exagerada a discussão que nos últimos anos tem sido levantada acerca da mineralidade de um vinho. É verdade que a palavra é excessivamente usada, particularmente nos vinhos brancos e nem sempre do modo mais correto. O que significa? Granito ou calcário húmidos? Pedra molhada, pedernã? Uma fonte de um jardim ou simplesmente chuva num dia de inverno?

Muito me engano ou este é um tema que irá durar mais uns tempos. Pelo menos, até outro ser encontrado. Por enquanto, é base de uma discussão garantida, mais ou menos acalorada, por entre os mais atentos e curiosos por vinho.

Pois bem, para quem quiser explorar, recomendo duas leituras rápidas. Sarah Jane Evans, na Decanter , e Ray Isle, na Food & Wine

Para mim, nos descritivos de um vinho devemos fazer um esforço para acertar nos componentes de aroma e de estrutura mais óbvios. Quando os começamos a esmiuçar entramos claramente num território mais subjetivo, diretamente ligado à nossa experiência profissional e pessoal. O que nunca nos devemos esquecer é perceber se o vinho é bom ou não, se gostamos ou não do vinho e se dele retiramos o prazer que deveríamos. É que o vinho, o bom vinho, é demasiado precioso para se ficar por discussões que muitas vezes quase lembram o sexo dos anjos.