Muitos estão fora dos holofotes mais mediáticos. Outros conquistaram esse reconhecimento mais público de forma paulatina mas segura. Em qualquer caso são profundamente conhecedores da realidade do projeto onde trabalham, tantas vezes decisivos para que outro colega ou o produtor consiga alcançar os resultados a que se propõe. Tantas vezes não referidos, os enólogos residentes são peças fundamentais no xadrez do vinho.

Escrevo estas linhas após ver Brahimi fintar uma muralha defensiva, como num jogo de xadrez, e colocar magistralmente a bola dentro da baliza, com uma naturalidade como só os grandes jogadores de futebol conseguem. Descrito assim parece ter sido obra de um homem só, mas todos sabemos que um grande jogador só tem condições de ser excecional se toda a equipa ajudar. Quem acompanha os futebóis sabe bem da irregularidade do argelino noutras épocas, precisamente quando a equipa não conseguiu ser o que nestes tempos é.

Ao longo dos anos, habituámo-nos a ver o nome de alguns enólogos frequentemente usado como assinatura em diferentes vinhos, tantas vezes em regiões distintas. Num campo de visão alargado à escala mundial ficou célebre a expressão “flying winemakers”, que desde finais dos anos 80 entrou no léxico do vinho. Designa os enólogos que viajam mundo fora, fazendo e assinando vinhos em diversos países, tendo dezenas de clientes (produtores).

Nada contra.

Muitos desses enólogos são verdadeiros “experts” naquilo que fazem, possuem uma experiência singular e garantem, a vários níveis, atributos extra a um determinado vinho – seja pela consultoria técnica, seja pela mais-valia em termos de marketing.

O volume de trabalho acumulado levou a que os mais atarefados desses enólogos tivessem que constituir equipas (empresas) com outros enólogos e técnicos, que lhes permitissem continuar a responder num timing aceitável às solicitações. Noutras situações, a opção recaiu na diminuição de consultorias e houve ainda quem tenha optado por abdicar de todas as consultorias para se assumir como enólogo/produtor. E, sim, há também os enólogos que conseguem equilibrar projetos pessoais com consultorias, evitando rotas concorrencialmente diretas.

Não deixa de ser sintomático que alguns dos nomes maiores da enologia atual tenham antes desempenhado esse papel de segunda figura… que nunca é menor.

Na esmagadora maioria destes cenários, existem os chamados enólogos residentes. São eles que vivem o quotidiano de cada projeto, são eles os “olhos” dos colegas consultores e são também eles, por vezes, o derradeiro auxílio de um produtor em apuros. Há ainda os que integram equipas de enologia mais alargadas em empresas de maior dimensão, onde o “head winemaker” acaba por dar a cara pelo trabalho coletivo.

A importância que têm é fulcral no correto desenvolvimento de um projeto. Aliás, não deixa de ser sintomático que alguns dos nomes maiores da enologia atual tenham antes desempenhado esse papel de segunda figura… que nunca é menor.

Se o salto qualitativo do vinho português se deve, em larga medida, a uma nova geração de enólogos e técnicos de viticultura, que em finais dos anos 90 e inícios de 2000 revolucionou o setor, não menos verdade é que depois dessa geração uma outra tem surpreendido com vinhos fenomenais.

Curiosamente, é uma geração de protagonistas menos mediática que a anterior, tendo a particularidade acrescida de ser constituída por vários “residentes” que se tornaram primeiras figuras. A emancipação, seja em contextos empresariais ou optando por caminho pessoais, tem resultado em vinhos seguros, muitíssimo bem-feitos, nalguns casos até verdadeiramente surpreendentes.

Sempre acreditei que quem é realmente bom no que faz não precisa correr à procura de holofotes ou apregoar em megafones o que seja. Quando a qualidade do trabalho fala por si, o reconhecimento acabará por acontecer.