Em termos de qualidade intrínseca de produto, o vinho nada fica a dever ao gin ou a qualquer outra bebida espirituosa. Já em termos de comunicação…

Os números saltaram-me à vista e parecem comprovar que o gin continua a ser mais do que uma moda – e, na hipótese de ainda se considerar que o e, é tudo menos passageira. De acordo com dados da Wine and Spirit Trade Association, em 2017 houve um aumento de 27% do consumo de gin no Reino Unido, situando-se numas bem simpáticas 51 milhões de garrafas. Conheceu-se outro número significativo: as exportações de gin atingiram um recorde de vendas, em 2017, de 530 milhões de libras, acreditando-se que essa curva de crescimento de exportação, por um lado, e consumo interno, por outro, se mantenha até 2021. Mais. No ano passado terão aberto 49 novas destilarias de gin no Reino Unido, perfazendo um total de 315, um espantoso aumento de 127% em escassos cinco anos.

É verdade que o Reino Unido é território com tradição no gin. Ali está o berço de algumas das principais marcas internacionais e o gin integra hábitos de consumo de gerações. Mas, também é verdade que se trata de um mercado privilegiado para consumo de vinhos de todo o mundo. Sim, os efeitos do Brexit começam ligeiramente a sentir-se em terras britânicas, com aumentos progressivos de preço, mas isso não explica o fenómeno.

O vinho, ou melhor, a fileira do vinho, hesita demasiadas vezes em inovar na comunicação. Medo de errar, de ousar em demasia, de ir além do que seria suposto?

Espanha e Portugal são países com séculos de tradição na produção e consumo de vinho, o que não tem invalidado o crescimento do consumo de gin. Quem diria há uma meia dúzia de anos que em muitos restaurantes teríamos, a par de uma carta de vinhos, uma carta de gins? Como se não bastasse a comunicação aguerrida das marcas, essas “malditas” ousam até sugerir gin para acompanhar refeições, garantindo que têm os melhores predicados por entre todas as bebidas para harmonizar, por exemplo, com sushi (moda + moda = reforço da moda). Se até há refrigerantes que decidiram entrar no terreno das harmonizações gastronómicas, por que não o gin?

O vinho nada deve a nenhuma outra bebida – gin ou outro espirituoso, refrigerante ou seja lá o que for. Da mesmíssima forma que enquanto houver civilização haverá consumo de vinho, simplesmente porque integra culturas e hábitos culturais, não apenas os mediterrânicos. Penso é que o vinho, ou melhor, a fileira do vinho, hesita demasiadas vezes em inovar na comunicação. Medo de errar, de ousar em demasia, de ir além do que seria suposto?

Olhemos uma outra moda, a cerveja artesanal. Os produtores australianos de vinhos, por exemplo, são hoje verdadeiros motores de produção de cerveja artesanal. Por que não? E se retomarmos o gin, começam a surgir casos de produtores de vinho que também elaboram gin. Alguma alma santinha verá nisso um sacrilégio?

Desde que bem comunicado, tudo tem tempo e espaço.

O setor do vinho só teria a ganhar se compreendesse, de uma vez por todas, que os dias de hoje, e sobretudo os de amanhã, exigem comunicar de uma forma menos quadrada. Umas vezes resultará melhor, outras menos bem, mas tentar novos caminhos sem estragar o que está bem feito é salutar e deve ser incentivado.

E não me venham com a conversa de sempre, a do investimento, argumento recorrente no vinho quando confrontado com caminhos traçados pelas espirituosas. Investir numa má campanha de comunicação custa, em mais de 90% dos casos, o mesmo que se pode investir numa boa campanha de comunicação. Os resultados é que serão bem diferentes.