Quando alguém se emociona com um pedaço de terra percebemos que algo de muito especial está a acontecer. Ver a natureza tocar no mais profundo da natureza humana é um privilégio que, sentados a uma secretária, jamais imaginaríamos possível.

A beleza mais pura e intensa do jornalismo é a reportagem. E é pena que no jornalismo português se encare alguém que faz reportagem e que no bilhete de identidade apresente cinquentas e tais ou mais anos como uma espécie de ato falhado.

Vejamos uma qualquer conferência de Imprensa na Casa Branca, nos EUA, e atentemos na quantidade de jornalistas de cabelos brancos, bem séniores, que ali estão a questionar o homem mais poderoso do mundo. O papel que desempenham é menor? Em quê?

Confrontemos essa realidade com a nossa. Quantos cabelos brancos, quantos rostos mais enrugados vemos questionar presidentes ou primeiros-ministros nas salas de conferências de Imprensa, tantas vezes transformadas em homilias a recém-licenciados em Jornalismo?

Há, reconhecidamente, falta de memória nas redações. Como há, infelizmente, alguma falta de reconhecimento por todos os que, sendo mais velhos e mais experientes, continuam a sair das redações à procura de estórias para criar uma história maior – com cabeça, tronco e membros. Devemos ainda lamentar que tantos, quando finalmente desafiados a sair das redações, o façam diretamente para o vazio da não profissão.

No caso específico de uma área como o vinho, conhecer o terreno, contactar com as pessoas do terreno – no terreno – é uma mais-valia inigualável. Só nesse instante conseguimos captar todo o restante quadro. Nalguns casos até parece que nas veias correrá seiva de plantas, não o sangue do comum dos mortais.

Há quem prove milhares de vinhos por ano e continue a saber pouco de vinho. Há quem palmilhe dezenas de projetos de vinho por ano e, sim, comece a perceber alguma coisa de vinho. O vinho é um negócio. Mas é um negócio com uma especificidade muito própria, que apenas se consegue transmitir com emoção.

A frieza de uma prova cega, onde o aspeto técnico é (e assim deverá continuar a ser) a premissa maior, é quase sempre insuficiente para se ter uma noção real de um país, de uma região, de um protagonista. Há quem prove milhares de vinhos por ano e continue a saber pouco de vinho. Há quem palmilhe dezenas de projetos de vinho por ano e, sim, comece a perceber alguma coisa de vinho.

É reconfortante ouvir as questões e as análises de quem percorre o mundo do vinho e não se limita a provar rótulos. Percebemos ali uma inteligência apurada, uma vontade genuína de saber mais. Esses obrigam, a quem é protagonista, a ir mais fundo nas respostas, a exercitar a memória, a reavivar as experiências. Não falo apenas de jornalistas, são muitas vezes profissionais do setor e até enófilos realmente apaixonados pela causa.

Para alcançarmos a real dimensão do vinho é necessário ter-se sensibilidade.
Ver alguém de olhos enternecidos a falar de uma planta, a videira, como se fosse um filho, toca-nos. Falar com alguém de mãos calejadas que nos relata a dificuldade de uma determinada colheita, mexe connosco. Perceber como alguém tenta pagar contas a partir de um pedaço de terra lamacento ou árido, sem outra garantia que não seja a convicção pessoal, emociona-nos.

O vinho é um negócio. Mas é um negócio com uma especificidade muito própria, que apenas se consegue transmitir com emoção. Os grandes negócios do vinho concretizam-se quando alguém é convencido pela emoção cristalina, aquela que vai além dos manuais de vender bem. Quem não perceber essa particularidade não entende o negócio.

Para percecionarmos essa emoção é preciso irmos lá, estarmos lá, pisar o chão que dá a uva.

Chamem-lhe “terroir”, “terruño”, terreno. O vinho que consegue exprimir o sentido de lugar do autor estará sempre acima dos outros. Pode não ser o mais perfeitinho, mas terá um carácter ímpar.

Não por acaso, vivemos esse momento. Quem sente o vinho de uma forma especial – e, no mundo, são cada vez mais – não se contenta com mais do mesmo; procura diferenciação, descoberta, personalização. Os vinhos que conseguem exprimir mais do que uma ficha técnica são os mais empolgantes, os que mais se valorizam, os que atraem a tribo da crítica e dos “maluquinhos” por vinho.

Não significa isso que apenas os micro-produtores tenham caminho aberto para a divindade vínica. As grandes empresas, desde que dotadas da tal sensibilidade, podem igualmente almejar atingir essa outra dimensão, aquela que extravasa a folha de Excel, que tantas vezes se torna impossível adjetivar.

Os vinhos com sentido de lugar não têm preço. E quando temos a felicidade de os descobrir na origem…

A realidade destes dias mostra-nos, no mesmíssimo Excel, que plantar kiwis ou frutos silvestres é muito mais rentável do que produzir vinho. Por isso, hoje quem cumpre diariamente o sonho de fazer “aquele vinho” com que sempre sonhou merece-me profunda admiração e respeito. Afinal, sem esses protagonistas muito pouco sobraria do sentido do lugar.

Por outras palavras, a vinha está para o vinho como a reportagem para o jornalismo. Num e noutro caso é ali que encontramos o “sumo”.