O equilíbrio

Independentemente de se tratar de um vinho simples ou complexo, seja uma opção descontraída para o dia a dia ou um rótulo super premium, o que mais aprecio e valorizo num vinho é o equilíbrio. E se esse vinho, independentemente do patamar em que se posicione, tiver frescura e elegância, tanto melhor.

Não me refiro à questão da frescura, uma saudável obsessão dos nossos dias um pouco por todo o mundo – e Portugal, até mesmo nas regiões mais quentes, como o Douro e o Alentejo, procura-a de forma incansável. Por ora, detenho-me no equilíbrio.

Sobretudo a partir dos anos 70 do século XX, acompanhando a maior mediatização do vinho em mercados anglo-saxónicos, as tendências de estilo têm assumido ciclos, uns mais longos que outros. Depois de recentemente terem vingado os vinhos super extraídos, em fruta e estrutura, o fenómeno que tantos apelidam de “parkerização” do gosto (numa alusão às pontuações elevadas atribuídas pelo crítico norte-americano Robert Parker a vinhos portentosos, por exemplo, da Califórnia) terá os dias contados. A nova tendência mundial preferirá vinhos mais equilibrados, mais elegantes, nalguns casos com menos álcool. Suavidade em detrimento da força bruta.

O consumidor mundial mais atento ao vinho estará cansado de vinhos que privilegiem uma só casta, que sejam desde logo descodificáveis na prateleira, que demasiadas vezes se sobreponham a tudo o que possamos estar a comer. Estará, alegadamente, mais interessado em regressar a vinhos com 13, 12,5 e 12 graus de álcool (e refiro-me a tintos), mais suaves e frescos, mais fáceis de beber. Confesso, todavia, que esta análise que vou lendo e ouvindo, em Portugal e fora do país, me parece demasiado generalizada e redutora.

Acredito que os consumidores de vinho mais experientes estejam interessados em conhecer diversidade: de castas e de “terroirs”, seja um branco grego ou um tinto líbio. Acredito, ainda mais convictamente, que a maioria dos consumidores continuará a pedir um Cabernet, um Chardonnay, um Pinot ou um Sauvignon assim mesmo, pelo nome da casta. Mas quero acreditar que serão cada vez mais os consumidores genéricos de vinho que, no mundo, comecem a selecionar os vinhos tendo como primeiro critério a origem – e Portugal, felizmente, está com uma imagem cada vez mais conseguida nos mercados internacionais, faltando ainda ganhar a batalha da conquista de espaço nas prateleiras.

Mais facilmente nos impressiona um vinho que grita tudo e mais alguma coisa do que um vinho de atributos igualmente tamanhos… mais silencioso. Mas parece-me errado construir muros de gosto.

O novo ciclo, dos tais vinhos mais suaves que tantas vezes relembram o passado de grandes regiões, poderá ser coisa para uma década ou mais, até surgir algo de novo. E terá por companhia a onda “craft”, onde menos é mais, onde melhor prática na vinha e menor intervenção na adega conduzem a vinhos mais fiéis ao lugar (agradecendo-se que isso não sirva de subterfúgio para justificar eventuais defeitos).

Mais facilmente nos impressiona um vinho que grita tudo e mais alguma coisa do que um vinho de atributos igualmente tamanhos… mais silencioso. Mas parece-me errado construir muros de gosto. Quem aprecia um grande Cabernet pode igualmente render-se a um fantástico Pinot.

Quanto ao equilíbrio, seja um “super Tuscan” ou um Borgonha, trate-se de um Porto Vintage 2016 ou de um branco minhoto, é fundamental ter balanço. Em qualquer dos casos, o gozo está em tentar captar-lhe o objetivo, apreciar-lhe as subtilezas, descobrir-lhe a história, desenhar-lhe um futuro.

Um grande vinho, essa eterna questão entre quem reflete sobre a matéria, não tem que ser um cavalo sem freio; pode ser uma delicada brisa de final de verão. Importará, isso sim, o primado do equilíbrio.

texto e foto: José João Santos