O Brexit e o vinho

Nos próximos anos, um dos mais desafiantes mercados para empresas e produtores de vinho será o britânico. A expetativa é grande e o nervosismo vai sendo crescente, até porque paira um manto de dúvidas acerca dos reais efeitos da saída do Reino Unido da União Europeia (UE), o já famoso Brexit. O que fazer por quem exporta ou tenta exportar para terras de Sua Majestade. Manter ou baixar preço? Insistir ou desistir?

Se a França é historicamente o grande país do vinho, a memória coletiva habituou-se a encarar o Reino Unido como a grande praça mundial do vinho. O conhecimento da classe média-alta e alta acerca de vinhos é superior, a crítica especializada mais reconhecida começou por lá, as tendências saíram de Londres para todas as outras capitais. Tempos houve em que não estar na grande montra britânica equivaleu a quase não existir internacionalmente.

É sabido, todavia, que sobretudo desde o virar do milénio a cena global do vinho já não é tanto assim. Muito por culpa dos Estados Unidos, que despertaram decididamente para o vinho, com as novas gerações a integrá-lo num certo estilo de vida urbano e cosmopolita, trazendo-o para a ribalta.

Tendo ambos, britânicos e norte-americanos, a incomparável vantagem de falar o idioma mais universal de todos, rapidamente os EUA espalharam pelo resto do mundo a influência da crítica especializada e com o apoio, discreto nuns casos, deliberado noutros, da gigantesca indústria televisiva e cinematográfica. Acresce a tudo isto a dimensão dos EUA e o facto de se tratar de um país que deve ser encarado como um conjunto de mercados dentro de uma mesma fronteira, nunca como um só mercado.

Temos ainda os chamados mercados emergentes. China, claro, mas também outros países asiáticos, e Canadá, Brasil, Angola… Ah, e não nos esqueçamos dos destinos europeus, incluindo nórdicos e destinos de Leste.

De todos, EUA e Canadá serão, muito possivelmente, os mais fiáveis novos mercados de exportação para os vinhos portugueses, com grandes potencialidades de crescimento, fiabilidade de pagamentos e a dupla oportunidade de aumentar volume e preço. Pelo contrário, Angola será o mais escorregadio deles e a China, apesar de ter milhões de potenciais consumidores, não é fácil de agarrar e perpetuar.

E o Reino Unido?

Continuará a ser um mercado importante e clássico para o vinho, incluindo o português. O Vinho do Porto, em particular, tem nele uma reputação de longa data e com a vantagem extra de ser um mercado consumidor das chamadas categorias especiais (ao contrário de França, Holanda e Bélgica, por exemplo, que se suportam mais em Portos de baixo preço). Ainda assim, ficará certamente mais difícil.

Os britânicos, também eles receosos acerca dos efeitos do Brexit, estão mais contidos. E se a libra começa a baixar e o euro a valorizar, significa isso que os vinhos importados ficam cada vez mais caros em solo britânico. A opção passará por vender mais barato? E se essa opção for tomada, que vantagem competitiva terão os vinhos portugueses face, por exemplo, aos vinhos chilenos?

Os britânicos, também eles receosos acerca dos efeitos do Brexit, estão mais contidos. E se a libra começa a baixar e o euro a valorizar, significa isso que os vinhos importados ficam cada vez mais caros em solo britânico. A opção passará por vender mais barato?

Há quem vaticine acordos comerciais em diversos setores. Porém, se a União Europeia não concretizar um sólido acordo comercial com os britânicos, pós-Brexit, dificilmente algum país da UE o poderá alcançar individualmente.
O que faria se fosse uma empresa ou um produtor de vinhos? Insistiria no

Reino Unido. E procuraria cada vez mais nichos de oportunidade, desde logo através de importadores que conseguissem abrir portas de restaurantes e bares de vinhos. Porquê? Porque toda a crise pode ser uma oportunidade suplementar e porque certamente muitos outros optarão pela via mais fácil – se o mercado está difícil, desista-se e procure-se outro.

Como em tudo, o tempo encarregar-se-á de dissipar as dúvidas. Tal como o outro tempo dissipa, nalguns meses do ano, o nevoeiro que diariamente se abate sobre Londres.

texto e foto: José João Santos