Mário Sérgio, entrevista e podcast: “Bairrada pode ser a melhor região para brancos”

Mário Sérgio Nuno é o produtor da Quinta das Bágeiras, na Bairrada. A vinha e o vinho correm-lhe no sangue desde que nasceu, muito por culpa do avô Fausto, com quem partilhou boa parte da infância e quem sempre o inspirou.

Prestes a completar 30 anos de projeto familiar com marca própria, este vigneron, como gosta de se assumir, garante ter ainda muito por fazer em nome da Bairrada e da casta Baga.

Para leitura, algumas das frases de uma conversa que pode ouvir na íntegra em formato podcast.

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Mário Sérgio Nuno, produtor de vinhos:

“É um francesismo, vigneron, mas é isso que sou. Eu sou um agricultor. O termo português correto é vitivinicultor/engarrafador, algo que as pessoas não sabem ou não querem saber o que significa. No fundo continuei um trabalho dos meus avós e dos meus pais”.

 

“A Baga é uma casta com grande potencial mas requer carinho do agricultor e o solo, que para mim tem que ser o argilo-calcário de encosta, de preferência. Plantar Baga em terrenos arenosos ou mais férteis penso que é um erro”.

“A Baga dá-nos identidade, isso é fundamental”.

“A Bairrada pode ser a melhor região de Portugal para brancos. Pelo solo, pela proximidade ao mar, pela frescura do clima. Sem grandes amplitudes térmicas consegue produzir vinhos com uma acidez extraordinária. Continuo a dizer que a Baga é aquela que nos dá identidade, mas a Bairrada tem um potencial enorme para produzir vinhos brancos, mais fácil até do que para tintos”.

“Na década de ’90, os bairradinos acharam-se o centro do mundo, que os seus vinhos estavam vendidos. Era a região que representou durante vários anos mais de 60 ou 70% do negócio do vinho em Portugal e acharam que o consumidor vinha ter connosco. Entretanto emergiram regiões novas, muito mais agressivas, com uma capacidade de fazer imagem completamente diferente do que a Bairrada estava habituada a fazer e por isso ficamos para trás. Não que os vinhos que estávamos a fazer fossem maus – tanto não o eram que tenho 600 ou 700 garrafas das décadas de 60, 70 e 80 que são absolutamente extraordinários”.

“Um grande vinho é bom nos primeiros anos ou ao final de 30 anos. Costumo dizer que a diferença entre um vinho muito bom e um grande vinho é muito simples: um vinho muito bom é o que bebemos hoje e gostamos muito; um grande vinho é aquele que bebemos ao fim de 20 anos e gostamos muito. Os vinhos muito bons que não resistem ao tempo nunca foram grandes vinhos”.

“Grande parte dos vinhos naturais, tal qual hoje se querem fazer crer, são naturalmente maus. Não concebo que um vinho que se beba hoje esteja, passado meio ano, carregado de defeitos”.

“Um pequeno produtor que não tenha identidade não tem futuro”.

texto: José João Santos / fotos cedidas pelo produtor Mário Sérgio Nuno