Castas (des)necessárias

O que fica o Douro a ganhar com o crescendo de plantações de Syrah? E será que alguma das experimentações de Pinot Noir no Alentejo resultará num vinho que possamos considerar um grande Pinot? Ah, já agora, na Bairrada só mesmo recorrendo ao dueto Chardonnay/Pinot se conseguem obter espumantes consensuais?

Lembro-me de numa manhã de outono, em reportagem já lá vão uns anos, um produtor da região dos Vinhos Verdes garantir-me que tinha um solo exatamente igual ao de Champagne, pelo que decidira também plantar castas da mais proveitosa região de vinhos do mundo juntamente com outras, bem portuguesas, acreditando piamente que os espumantes que naquela altura estava a lançar no mercado seriam um tremendo sucesso – qualitativo e financeiro. Curiosamente, ou talvez não, não tenho muito mais histórico desse produtor e, repito, já passaram uns anos.

No Douro, garantem-me que a casta Syrah se adapta de forma excelente, a ponto de os vinhos com ela elaborados serem muito bem aceites no mercado, embora tenham que ser apelidados de Regional Duriense. E a onda vai sendo cavalgada, com plantações de Syrah, em especial no Cima Corgo e no Douro Superior.

Na Bairrada, sob o argumento de se tratarem de castas introduzidas ali no século XIX, muitos defendem o uso recorrente ao Chardonnay e ao Pinot Noir para se alcançar um estilo de espumante mais apelativo. No caso dos vinhos tranquilos o recurso ao Merlot, por exemplo, é frequente.

No Alentejo (que teve a ousadia de reinventar o Alicante Bouschet que os franceses abominavam), a mais recente obsessão de alguns produtores passa por plantar Pinot Noir, num registo de experimentação mas igualmente com a secreta esperança de alcançar um Pinot único, singular, que a todos seduza.

Poderia avançar muitos outros exemplos de castas (veja-se a popularidade que o Petit Verdot parece estar a ganhar de norte a sul) e de outras regiões (Lisboa, Tejo, Península de Setúbal…). Não tenho nada contra o recurso a castas internacionais (ou francesas, como prefiram), até porque sou fã de bons vinhos de algumas delas – como o Pinot Noir e o Sauvignon Blanc, por exemplo. Reconheço os méritos fantásticos de variedades como Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah ou Chardonnay e, sim, é verdade, muitos dos melhores vinhos do mundo são elaborados a partir delas. No mesmo registo aceito que muitas grandes empresas portuguesas façam “vinhos à medida” para determinados mercados de exportação, com recurso a castas estrangeiras.

As minhas reservas são muito simples e de cenário macro: o que ficam a ganhar regiões como o Alentejo, o Douro, a Bairrada e outras mais com a aposta em castas internacionais, numa perspetiva de longo prazo?

Os grandes vinhos portugueses, convenhamos, são os de lote. E a arte do “blend” é muito portuguesa no vinho. Temos mais de 250 castas autóctones identificadas, existirão para cima de 300, e dessas apenas se usam recorrentemente umas duas dezenas. Os vinhos portugueses são muito mais que os Touriga ou os Alvarinho, são a compilação de um património genético de uma riqueza impressionante.

O mundo procura vinhos diferentes. A crítica elogia Grécia e Geórgia por estarem apostados em elaborar vinhos com castas autóctones, que se distinguem na montra internacional. Portugal deixar-se-á ultrapassar? Em nome de quê?

O que ficam a ganhar regiões como o Alentejo, o Douro, a Bairrada e outras mais com a aposta em castas internacionais, numa perspetiva de longo prazo?

Felizmente, campos ampelográficos de estudo do comportamento de dezenas de castas estão a ser plantados por importantes produtores nacionais em diferentes regiões, tal como há anos é feito por Domingos Soares Franco na Quinta de Camarate, Azeitão. Felizmente, o IVV – Instituto da Vinha e do Vinho já lançou o repto aos agentes do setor para experimentarem e partilharem resultados com castas portuguesas menos difundidas. E, de modo bastante saudável, há cada vez mais plantações de “field blend” a tentar replicar os resultados das vinhas velhas, outro património a preservar no país, com os necessários ajustes e conhecimentos da viticultura atual.

A médio e longo prazo, o que valerá mais em nome da diferenciação? Um hectare de Syrah no Douro ou um hectare de vinhas em “field blend”? Um hectare de Merlot na Bairrada ou um hectare de Cercial?

Fazer um vinho fácil de agradar pode trazer um retorno imediato. Mas quem está no vinho a pensar no curto prazo está no negócio errado. O negócio do vinho é de longo prazo, por vezes até de gerações, e a reputação de produtores, de marcas e, sobretudo, das regiões só se consegue através de duas coisas: consistência e identidade. Pois bem, identidade não falta aos vinhos portugueses. Basta querer-se.

texto e foto: José João Santos