Já repararam que os vinhos brancos alentejanos estão cada vez melhores? Substancialmente melhores. Será, certamente, devido ao apuro da viticultura e da enologia, à introdução de novas castas que não eram comuns na região, ao regresso em força à zona de Portalegre, à descoberta da costa litoral para produção de uva…

Confesso. Durante anos, salvo honrosas exceções, não fui um grande fã de brancos alentejanos. Reconhecia-lhes tipicidade, aptidão para gastronomia, mas muitos pareciam demasiado iguais, pecando frequentemente pela falta de acidez e de frescura. Não que as variedades Antão Vaz e Roupeiro, por exemplo, não consigam alcançar grandes vinhos – claro que o conseguem e com um toque de diferenciação nem sempre fácil de atingir. Todavia, esse dueto de castas sempre me pareceu escasso para uma região tão vasta.

Viticultores, enólogos, produtores, todos parecem entretanto tê-lo percebido. Até porque neste mundo global, onde a facilidade de viajar e de aceder a informação é incomparável com qualquer outro período da história, é fácil ter acesso a vinhos de qualquer ponto do globo. E um produtor que exporta (e os produtores alentejanos fazem-no com mestria para vários mercados) e que representa a região que domina as preferências internas (e o Alentejo é líder de mercado em Portugal há vários anos) precisa ter no portefólio vinhos brancos competitivos e facilmente compreendidos, a partir dos quais possa então demonstrar a tal tipicidade (num futuro breve escreverei acerca do fenómeno dos vinhos de talha).

O reforço da aposta no Arinto a par da plantação de castas como Viosinho, Gouveio ou mesmo Alvarinho, apenas para citar algumas, aportou uma frescura suplementar aos vinhos alentejanos. Os ensaios têm-se sucedido e as maiores casas têm, na vinha, verdadeiros campos ampelográficos onde vão testando a adaptabilidade de múltiplas castas ao “terroir”. Em paralelo, o movimento de retorno em massa à zona de Portalegre (mais fresca, onde neva com frequência no inverno, climaticamente semelhante a uma extensão da Beira Baixa), ilustra bem o que todos procuram no Alentejo – acidez e frescura.

Portalegre não só oferece isso como disponibiliza um património que tem tanto de raro como de notável – parcelas de vinhas velhas, vários de encepamento branco, com dezenas de anos, tratadas com carinho e abnegação singulares por uma geração de locais que, infelizmente nalguns casos, está perigosamente idosa.

Os ensaios têm-se sucedido e as maiores casas têm, na vinha, verdadeiros campos ampelográficos onde vão testando a adaptabilidade de múltiplas castas ao “terroir”. Em paralelo, o movimento de retorno em massa à zona de Portalegre (mais fresca, onde neva com frequência no inverno, climaticamente semelhante a uma extensão da Beira Baixa), ilustra bem o que todos procuram no Alentejo – acidez e frescura.

E no extremo litoral temos como que o surgimento de uma espécie de nova sub-região. Na costa alentejana, a escassos quilómetros do mar, também há vinhas e vinhos, sobretudo brancos. Se alcançar o sucesso que no virar do século foi conseguido por novos projetos na zona de Albernôa (bem mais quente e árida, onde muitos vaticinavam impossibilidade de vinhas de qualidade e hoje rendem-se à evidência), os vinhos da costa alentejana terão chegado para ficar.

Por último, não menos importante, é de louvar a capacidade e domínio da viticultura que hoje existe na região. O Alentejo, terra de muitos dias tórridos mas também de noites frescas, é uma região de cariz mediterrânico que tem capacidades invulgares para variado tipo de agriculturas, tendo o vinho alcançado um feliz compromisso entre classicismo e modernidade.

E sublinho esta nota, que me parece importante: o Alentejo lidera em muitos aspetos entre as regiões portuguesas porque não tem medo de arriscar e de experimentar. Apesar disso, parece-me redutor tratá-lo somente como território de Novo Mundo. É bem mais do que isso, tendo aptidão para vinha e vinho há vários séculos – que o digam os romanos.

Hoje, bebo com facilidade um branco alentejano, com ou sem gastronomia. E são poucos os que acho maçadores. Ah, e os Antão Vaz? Os melhores passaram a um patamar de excelência. A isso chama-se evolução. Compreensão dos tempos, se preferirem.