Tal como os heróis de BD ou as narrativas dos Descobrimentos que nos fizeram vibrar nos tempos de escola, também os produtores de vinhos portugueses de hoje perderam o medo de se anunciar ao mundo e fizeram de uma necessidade uma incrível oportunidade.

A crer nos livros e nos relatos dos professores da época, fomos grandes. Gigantes, mesmo. Afinal, um pequeno país decide enfrentar todos os Velhos do Restelo e Adamastores, enfrentar todos os perigos do sempre desconhecido mar à procura do que não havia certeza que existisse. E, assim, a mais dourada página da história portuguesa se escreveu por dois séculos, aqueles de XV e XVI em que fomos, pelo menos no desenho dos mapas, donos de meio mundo.

No vinho, existe uma nova armada portuguesa. Houve duas mãos cheias de pioneiros que há muito a integravam, mas a esmagadora maioria entrou no barco como escape à crise que abalou todos os terrenos na segunda metade da primeira década deste século. Obrigados a procurar o que Portugal e os países mais próximos já não poderiam oferecer, mercado, encheram malas de viagem com garrafas de vinho e desataram a tentar descobrir novos destinos, fazendo da exportação uma realidade. Os que o fizeram numa primeira leva, abriram caminho mas saíram beneficiados em contactos e quantidade de oportunidades. Os que desconfiaram e tentaram resistir até ao último momento tiveram maiores dificuldades, mas lá vão trilhando caminho.

É por mérito de todos que hoje, na cena internacional, os vinhos portugueses são vistos como bem mais do que exóticos. Representam qualidade a bom preço, conseguem diferenciar-se, apresentam (finalmente) consistência – característica crucial para serem levados a sério.

Nas grandes montras internacionais é notável ver a curiosidade pelo pavilhão onde os produtores nacionais se concentraram e, mais importante ainda, é gratificante perceber que quem trabalhou antecipadamente a feira, agendando reuniões, conseguiu bons resultados.

É por mérito de todos que hoje, na cena internacional, os vinhos portugueses são vistos como bem mais do que exóticos. Representam qualidade a bom preço, conseguem diferenciar-se, apresentam (finalmente) consistência.

Há, em paralelo, as grandes pontuações nas principais revistas especializadas internacionais, as reportagens que vão surgindo em jornais e revistas generalistas, a abertura de grandes nomes da crítica para visitarem o nosso país e em cada região contactarem com o que é feito no dia a dia. E comunicar o vinho a ver a vinha e a adega, acreditem, fica muitíssimo mais fácil.

O caminho faz-se caminhando e é muito provável que ainda demore mais uns anos até que os vinhos portugueses sejam percecionados, na generalidade dos mercados externos, a preços mais elevados e conquistem igualmente maior relevo nas prateleiras das wine shops internacionais. Mas, quem adivinharia que tivéssemos conseguido tanta notoriedade em tão pouco tempo?

A essa conclusão já muitos parecem ter chegado. Desde logo aqueles que mais viajam pelo mundo a vender vinho português, os primeiros a encararem o trabalho que protagonizam como uma tarefa de formiguinha, de insistência e persistência.

Ora, vender vinho pelo mundo é uma corrida de maratona, onde é preciso ter sempre fôlego e não cair na tentação de querer ganhar tudo nuns escassos metros. E se as longas distâncias sempre deram alegrias aos portugueses no atletismo, por que não também no vinho?