A hora do exotismo

Um pouco por todo o mundo, milhões de consumidores procuram descobrir um vinho que saia fora dos cânones, que constitua uma espécie de descoberta pessoal para difundir como novidade junto de amigos, que seja diferente de todos os outros vinhos já provados. Panca? Não, sede de algo de novo.

Até meados da primeira década do século XXI, o discurso do setor do vinho em Portugal insistia na absoluta necessidade de facilitar a comunicação do produto e o tornar atraente aos olhos das novas gerações. Ouvi, até à exaustão, a preconização de tornar o consumo de vinho numa moda.

A caminho de finais da segunda década do século, felizmente para todos (setor e consumidor final) que o vinho se afirmou muito mais do que uma moda. Passou a ser encarado pelas gerações mais jovens como algo natural e cultural, que pode (e deve) ser enquadrado num estilo de vida saudável, que encontra lugar próprio no dia a dia, sem necessidade de cerimoniais de ocasião ou consumos na penumbra de um tasco. Durante demasiado tempo, em Portugal o vinho esteve associado a excessos, a coisa menor e de pouco interesse – e nada disso fazia sentido, sobretudo se atendermos aos pergaminhos históricos do nosso país enquanto produtor; e nos países produtores de vinho, como Portugal, todos nascemos a aprender que se trata de um produto tão “normal” de apreciar, sem diabolizações, como tantos outros.

O crescente interesse das novas gerações pelo vinho (que decorre em paralelo com o aumento do interesse pelas temáticas da cozinha, dos cozinheiros e dos restaurantes, retirando daí benefícios evidentes) acabou por motivar uma considerável maior mediatização, não apenas nos Media dito convencionais (jornais, rádio, televisões) mas, muito em particular, no online e nas redes sociais. Passou a ser “cool”, virou “fixe”, é “trendy” partilhar fotos de uma garrafa de vinho que provamos e gostamos, tal como de um prato da chamada cozinha de autor, uma receita lá de casa, um singelo fruto colhido na horta da avó.

O acesso generalizado é esmagadora maioria dos rótulos e a curiosidade, aguçada pela difusão crescente de informação, faz com que todos aqueles que apreciam vinho e querem saber mais procurem algo de novo, de diferente do “mainstream”, que fuja dos caminhos mais óbvios.

Detenho-me na busca pelo exotismo.

Uma franja importante de consumidores de vinho em todo o mundo, muito em particular de novas gerações, está hoje mais predisposta a experimentar vinhos diferentes. Melhor, procura-os. Quer fugir dos padrões das castas mais difundidas, das marcas mais comerciais, do circuito de sempre. A adrenalina do desconhecido e uma apetência suplementar por experimentação leva-a a arriscar mais, a preferir correr o risco de não gostar do que se ficar pelo que é conhecido por todos.

Uma franja importante de consumidores de vinho em todo o mundo, muito em particular de novas gerações, está hoje mais predisposta a experimentar vinhos diferentes. Melhor, procura-os.

Muitos produtores de vinho do mundo já o perceberam. Se os produtores de nicho agradecem, as grandes empresas mundiais de vinho puxam pela imaginação para dar a estes consumidores vinhos menos óbvios, que sejam complementos das gamas mais tradicionais e não concorrentes dessas.

Numa prateleira mundial, um consumidor jovem e minimamente informado tem um comportamento que chega a ser semelhante ao de um profissional do vinho. Quer experimentar uma garrafa que se pré-anuncie como diferente, independentemente de gostar ou não dela no final. O mais importante, aquilo que conta, é o ter experimentado.

Também assim se criam fenómenos. Também assim se vendem milhões de garrafas por todo o mundo. O que me leva a concluir que nunca como hoje terá havido tamanha predisposição para o exotismo no vinho.

Que essa curiosidade se mantenha porque só assim se descobrem novos caminhos. O vinho, tal como qualquer outra coisa, não tem que ser cinzento, ou melhor, não tem que ser apenas branco, tinto ou rosé. Pode até ser laranja. Pode até ser azul. O que importa é que seja bom.

texto e foto: José João Santos