Quando abrimos a garrafa de um vinho esperamos ser surpreendidos com algo de novo ou ficamos agradecidos por algo que não obrigue a grandes reflexões? Há, certamente, tempo e lugar para ambos. E pode um vinho aparentemente imperfeito ter uma beleza singular? Claro que sim.

Já o escrevi. A característica que mais aprecio num vinho é o equilíbrio. Isso está longe de significar monotonia. Porque, todos o sabemos, a monotonia leva ao cansaço, que resulta num grandessíssimo aborrecimento que, inevitavelmente, leva à rutura…

Continuo adepto de muitos vinhos que, vindima após vindima, permanecem semelhantes, nalguns casos até iguais. São valores seguros, escolhas certeiras que raramente nos provocam dissabores. E são, claro, obras bem conseguidas da enologia, uma vez que o vinho não é um refrigerante – é obtido a partir de uvas, é um produto resultante dos humores de S. Pedro e da mãe natureza em cada ano. Por isso, acredito que é mais difícil fazer-se um vinho sempre igual, ano após ano, do que conseguir um vinho excecional de quando em vez.

Opto pelos vinhos “certinhos” em situações de consumo mais descomprometido. Mas, os vinhos que acabam por verdadeiramente entusiasmar são aqueles que nos obrigam à reflexão, nem que essa reflexão seja breve. Tentar perceber o que esteve na origem daquele vinho, que opções possam ter sido tomadas, como foi o ano, qual o objetivo pretendido…

Tal como a Barbie será sempre uma boneca laroca, um vinho sempre igual, desde que bem elaborado, dará sempre prazer provar. Mas, quando se consegue contemplar a beleza da imperfeição, transpomos uma outra dimensão.

(desculpa-me, Barbie)

Estes vinhos têm também a capacidade de suscitar conversas e controvérsias, de muitas vezes engrandecer castas tidas como menos nobres ou até de posicionar as variedades mais reputadas em lugares mais exóticos. Levam-nos ao exercício do entendimento.

São vinhos imperfeitos, frequentemente fora da caixa, mais suscetíveis à crítica – a positiva e a negativa. São, todavia, estes vinhos que mais nos ficam na memória e acerca dos quais acabaremos um dia por regressar, nem que se para dizer “Um dia provei um vinho que…”.

Na génese destes vinhos encontram-se enólogos e produtores quase sempre de pequena e média dimensão, que trabalham determinados nichos de mercado e neles alcançam reputação. Mas os mais atentos e menos complexados ficarão surpreendidos pela quantidade crescente de produtores de grande dimensão que, de entre um portefólio vasto e seguro, arriscam algo de diferente e mais ousado, como que a querer dizer “se quisermos, também o conseguimos e sabemos fazer”.

Tal como a Barbie será sempre uma boneca laroca, um vinho sempre igual, desde que bem elaborado, dará sempre prazer provar. Mas, quando se consegue contemplar a beleza da imperfeição, transpomos uma outra dimensão (desculpa-me, Barbie).